sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Netflix, sexta à noite, numa democracia

And I’m neither left nor right
I’m just staying home tonight
Getting lost in that hopeless little screen

Na música de Leonard Cohen, alguém se perde em uma TV em meio à segunda vinda da democracia, diante da qual que se foda, Netflix and chill.

De tal modo, vejo no twitter que, com o Netflix, alguém tem a noite garantida. É uma evocação de alianças e referências, lista de nomes e títulos, uma fortaleza espiritual contra os inimigos declarados lá fora, curtindo muito. Essa é a narrativa que se desenvolve na Internet, imediatamente reconhecível e compartilhada.

Leonard Cohen descreve o famoso isentão. Nem esquerda nem direita, apenas Eu, como sabia o Orkut. O isentão de isento não tem nada, é só mais uma escolha. Nada mais democrático que dispensar a política para dar lugar a sentimentos antidemocráticos, indiferentes – já previstos democraticamente no seu Eu. Mas entre quatro paredes, sexta à noite, o Eu é insuportável, e precisa ser diluído numa tela.

Ele nunca antes existiu tanto quanto existe hoje. Quem encontra no netflix um refúgio contra as pressões da sexta-feira confirma na realidade cotidiana o que disse Isaiah Berlim sobre o romantismo – menos uma época ou um movimento do que um estado de espírito que pode ser encontrado em qualquer lugar.

Em uma viagem à Rússia, Walter Benjamin se hospeda em um hotel ocupado "quase inteiramente por lamas tibetanos”. Ele nota que os hóspedes deixavam as portas dos quarto sempre abertas. Acontece  que os monges eram membros de uma seita que havia feito votos de “nunca permanecer em lugares fechados”, e conclui, para ilustrar o Eu que o surrealismo contrapunha à “individualidade burguesa”, romântica: “viver numa casa de vidro é uma virtude revolucionária por excelência.”

Você o conhece. Você o sente de vez em quando, como presença física, sempre que chega da rua. Ele nasce entre quatro paredes. Ele se precipita na vontade de privacidade, na vontade de não ser incomodado, na vontade de não ser visto, no direito à individualidade garantido pela democracia. Ele dança quando você se resfolega na melancolia gostosinha de estar existindo entre quatro paredes, entrincheirado da sexta-feira.

Houve uma época em que tentaram dispensá-lo como mero construto, como se o desmistificar de sua artificialidade bastasse para eliminá-lo. Mas cá estão vocês, existindo pra caralho, autentica ou artificialmente.

Numa democracia é o seu direito, talvez a sua obrigação, trancar-se entre quatro paredes (protestos de rua não viram notícia porque são uma excessão?). De todo modo, está tudo previsto. Surrealismo mesmo seria descobrir que, numa casa de vidro, o Eu é como um cadáver mal embalsamado. A única casa de vidro que conheço é a rua. Saía na rua e ele será forçado a ser arrastado. Você o sente, sente seu fedor – basta ser visto por olhares que não batem com os do seu inventório particular, que consiste em variações do seu olhar sobre os outros.

Na Internet, ele aparece na ostentação de zoa da solidão. A internet não é uma espécie de rua. Aqui, você o manipula, o revira, estetiza suas partes e finge tacar fogo nelas, simbolicamente, como um político de palha queimado em auto-da-fé. Todo dia alguém quer desaparecer, ninguém aguenta nada, mas só muito poucos desaparecem mesmo.

“What no one knows about you is what allows you to know yourself”, uma frase de DeLillo encontrada na Internet. Entre quatro paredes você pode ficar triste de boa sem ser  muito incomodado pela insuficiência do seu inventário. Na rua as coisas se complicam: em teoria, do alto da sua racionalidade, ninguém sabe nada sobre você, mas e as mensagens que você envia o tempo todo? Suas roupas, seu cabelo, seu andar, seu olhar. Ninguém te conhece menos do que você, caminhando num miasma de fedor.

Fui descobrir muito tempo depois que a frase de DeLillo é uma reformulação do que diz o Monsieur Teste do Valery: “É o que tenho de desconhecido a mim mesmo que me faz ser eu mesmo”.

Mais de meio século separam essas duas frases. A diferença fundamental entre elas é que na primeira o que te permite ser você mesmo são os outros, e na segunda é o que você mesmo não sabe sobre ti o aquilo te faz você. Valery a escreveu no auge do surrealismo, e ela pode ser entendida como uma forma de se dizer que o que se conhece de si mesmo, aquilo que é sentido na pele trancado no seu quarto, vem de outros lugares, é imposto a você. Embora pareça nova, e embora tenha suas aplicações, para o contexto que estou criando essa é a velha maneira de se lidar com o eu: o desconhecido – que já foi chamado de embriaguez, intoxicação, sonho, delírio etc – seria mais constitutivo da sua pessoa porque ainda não teria sido mapeado – o que no fundo é uma mentira, sempre tem um mapa (normalmente grego.)

Para algumas pessoas, não é preciso muita coisa para se acreditar estar delirando, ficando maluco, prestes a desaparecer. É tanta normalidade performativa que qualquer desviozinho já ganha ares de hospício. A internet mostra isso todos os dias.

“If you reveal everything, bare every feeling, ask for understanding, you lose something crucial to your sense of yourself”, outra de DeLillo, de onde é possível esvaziar sua seriedade e inserí-la em outro contexto, mais zoado. Pois olhe a zoa que é a internet brasileira, produzidas principalmente por adolescentes. “Manda sentimentos”. “Por favor nunca te pedi nada”. “Namoralzinha” – mandar sentimentos fingindo ironia, ou fingir sentimentos com ironia, já virou uma tradição, uma escola.

Alguém alterna entre o Netflix e o Twitter e manda sentimentos sem especificar um destinatário, como se um nome próprio fosse destruir a pureza de algo que pertence livremente ao mundo. A que se referem essas mensagens, no fim do dia? Ao inimigo assumido do Eu, o objeto-último de toda ridicularização, aquilo que não pode ser separado de sua forma ironizada. Na narrativa implícita dessa internet (elas são muitas), se esse objeto de desejo fosse um dia alcançado ou realizado, adeus internet.

Enquanto isso não ocorre, qualquer um pode ser reduzido (como sabiam os gregos) a um adolescente na internet, cheio de furor e vergonha.

I love you for your beauty
but that doesn’t make a fool of me:
you are in it for your beauty too
and I love you for your body
there’s a voice that sounds like God to me
declaring, declaring, declaring that your body’s really you.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Ver a violência


Então, uns italianos estão desenvolvendo um jogo sobre manifestações de rua, violência policial, black bloc etc, inspirado nas muitas manifestações pelo mundo. O jogo é em estilo pixelado da geração 16bits e, até onde sei, é o primeiro que se vale, diretamente, dessa experiência.

Daí a Wired italiana realizou um festival onde o jogo foi apresentado num painel chamado “Pixel, coquetéis molotovs e black bloc: um computador para compreender a inquietação social”.

O secretário do sindicato da polícia italiana ouviu a notícia e enviou uma carta ao prefeito de Milão, onde conclama um boicote ao jogo (ainda mais, diz o secretário, considerando que um dos patrocinadores do evento foi a Audi, “cujos carros”, ainda segundo ele, e na deliciosa tradução do Google Translator, “são aqueles preferidos por revoltosos onde enfiar bombas e então uivar comerando”.)

Nada de novo em quererem proibir algo por acreditar que esse algo incita a violência. Mas o curioso é que, na carta, a menção não é a qualquer violência, mas sim a violência “contra policiais”, especificamente.

Sem nem considerar a violência geral e familiar de metade dos jogos que saem por ano, ainda resta uma lista interminável de jogos onde há o choque de algum tipo de ‘rebelde’ com uma ‘polícia’. Nenhum deles, me parece, jamais chamou atenção de nenhuma força de segurança. Sobrou pra um jogo ainda em desenvolvimento, cuja mecânica mal foi revelada, e do qual só temos algumas imagens. Por ser, diretamente, sobre desobediência civil.

Fica claro que, pro chefe do sindicato de polícia italiana, certos temas – não certos jogos, não certos objetos culturais, não certas artes – certos temas deveriam ser proibidos e pronto.

Não consigo imaginar nenhuma autoridade reclamando de um filme sobre manifestações que, por exemplo, fosse montado só com imagens gravadas por celular, com a câmera tremendo na correria, com os gritos, com aquela realidade toda vazando. Já me parecia que a tal estética ‘nua e crua’ é um código exaurido, ao menos em sua superfície mais imediata de instigância, urgência e verdade, e ao menos na cabeça mesma de quem deveria ser o alvo. É só ’arte’, é só ‘política’, é só retórica revolucionária batida, só desperta a vontade de desobediência em quem já tem. De maneira bastante geral, esse códigos já foram naturalizados faz tempo, e essa estética se autodecifra muito rapidamente pra permitir alguma experiência desviante.

Nesse ponto é preciso mostrar pra quem não conhece o que é um jogo pixelado. Veja no fim do texto o sprite da polícia, olhe o manifestante.

Não dá pra dizer de outra maneira: o poder que tem um pixel. Numa época em que, pra quem acompanha, saem por ano uns 40 jogos que emulam os saudosos gráficos do Super Nintendo e do Mega Drive, a ponto de já estar cansativo, temos cisudos oficiais poderosos engatilhando armas por causa de um jogo em estilo meio retrô.

Segundo o secretário, não é um ‘frame específico’, mas sim a mecânica que é o problema. Eu acho que não: sim, é uma mecânica que te coloca no lugar de alguém tacando um coquetel molotov, segundo foi noticiado (embora, aparentemente, também dos polícia), mas a interface para essa experiência vai ser a do pixel. É um polícial e um manifestante em forma de pixel. Não dá pra ser mais visível do que isso.

Está cada vez mais difícil pra polícia mandar um c’mon, there is nothing to see here.





sábado, 2 de maio de 2015

As máquinas estão fazendo literatura com nossas informações

Escrevi um artigo para o Caderno PrOA, do Jornal Zero Hora, sobre informação, Edward Snowden, militares hermeneutas, números enquanto entidade proteica e literatura.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2015/05/as-maquinas-estao-fazendo-literatura-com-nossas-informacoes-4752220.html

e-mail criptografado de Edward Snowden para Laura Poitras

domingo, 15 de março de 2015

quinze de março de dois mil e quinze



Tanta gente sabe tanto.

Por exemplo, a PM,
segundo o repórter da Globo News,
ela sabe por meio de

ferramenta tecnológica de mapeamento geo-referencial,

ênfase em tecnológica,
a partir de imagens aéreas
que foram um milhão de pessoas!
enquanto a datafolha contou duzentos mil
por método próprio
sem ênfase

(com uma caída de ritmo
que foi inserida meio de zoeira meio a sério na narratologia
com o nome de Bathos
que é quando cai do exaltado ao banal
e a coisa termina assim
meio xoxa).

É que, continua a Globo,
a folha não contou as adjacências da Paulista.

É tão angustiante imaginar um espectador da Globo News
acreditando que no Bathos do repórter
se esconde um fato explicativo,

ou imaginar o mesmo espectador concordando gravemente
com a gravidade tranquilizante do tecnológico,

quanto é olhar a foto das moças vestindo camisa de
Presidenta queremos nossa bolsa
com foto de uma bolsa
presumivelmente muito,
muito cara,
e pensar que é muito fácil,
que é a coisa mais fácil do mundo
zoar a foto, que é uma piada pronta,
e muito difícil
ver a seriedade da foto, que é só meio de zoeira;

ver – só ver – o esquerdismo da zoeira;
ver que o diálogo é impossível

porque a bolsa tem uma importância absurda,
que a gente só conhece de imaginar.
E se você pega um cara exaltado,
indignado com o absurdo,
que vai usar os argumentos marxistas necessários,
por algum desígnio do qual eu não me orgulho
eu as vejo dizendo
“Eu não reconheço o marxismo
da mesma forma que você não reconhece a bolsa”,
ou pelo menos quase da mesma forma,
“como visões de pertinência política.”

É bizarro,
é muito bizarro,
apesar de gente de humanas na internet –
que é meio de zoeira meio séria –,
como ninguém vê que o problema
talvez o grande problema
seja o de duas esferas que não se comunicam,
e que talvez dê pra aprender com os engenheiros que a gente de humanas zoava,
já que alguém precisa construir pontes.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Sentimentos são mensagens

Tentativa de interpretar, ou reescrever, ou o que seja, com a ajuda de uma desleitura de Gregory Bateson, esse relato sobre bipolaridade, escrito por Helena Gayer e publicado na revista piauí de dezembro de 2014.

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A. Pulemos de um ponto de vista a outro, de uma perspectiva a outra: toda situação intracelular corresponde a uma situação sociocultural. Costumo andar por aí acreditando que meu sistema celular é controlado, autorregulado, e portanto possuo uma tendência estressante a andar na linha (mas não sem células protorevolucionárias em atividade às quatro da manhã). Talvez eu não pareça com essa mulher justamente porque minha vida intracelular foi standartizada com sucesso, tanto pela medicina quanto por todo o resto. 

B. Standartizar é padronizar. É o bom e velho dispositivo, um sistema de notações, comandos, repetição de padrões e regulamentos entrópicos visando o controle de um sistema, só.

C. No momento das crises a autora sofre uma injeção de vida e sexualidade. À essa intrusão descontrolada de hormônios segue-se imediatamente sua contraparte: uma profusão de imagens e narrativas reconhecíveis, todo um modelo de aventura e romantismo que se assenta sobre ela como uma roupa provocante vestida com alegria.

D. Sentimentos e sensações são mensagens que um sistema envia para comandar e regular transações entre corpo e ambiente. Sinta isso e aja assim. Sinto amor por você, mas você é um elemento no sistema de comunicação que se impõe entre nós, estou preso a um ponto de vista inumano e impossível, que no entanto me consola. Sou um “romântico”, a função de um ato de tradução entre línguas diferentes.

E. Clichês românticos levados a sérios, se mais nada porque são realmente sérios. O submundo, o inferior, a camada renegada pela história e da cultura e da sociedade oficiais é para onde a autora e seu corpo são impelidos aventurosamente durante as crises. As diversas evocações e invocações cósmicas de uma força reguladora, talvez nada mais que a expressão traduzida de um corpo inacessível tentando se autorregular, resultam imediatamente em sua contraparte concreta - a polícia - para assegurar que o surto não extravase demais para seu “outro” social.

F. O "dispositivo" é sujeito a formas de vidas que, entre si, não falam a nossa língua. Segundo muita gente, a linguagem intracelular é (apenas) a linguagem da informação. Se, como queria Kittler, toda informação é simbólica (no sentido de notação, inscrição, sem significado alocado), o mundo só se apresenta carregado de significado àquele que possui vida intracelular desrregulada, (que escapou à simbolização – standardização e catalogação da medicina). O problema, como o relato deixa claro, é que o mundo carregado de sentido e beleza é, principalmente, perigoso, e de uma maneira não-filosófica. O impulso desbravador levou a autora a situações socioculturalmente ruins. Inclusive, a exposição desses perigos é um dos mecanismos que valoram o relato. O fato de um cachorro vira-lata na praia às três da manhã se apresentar como a destilada encarnação do Mal contra a qual a autora precisa lutar, ou os relatos de quase violência sexual, são algo como uma “retórica da imanência”, a linguagem com que o mundo à flor da pele se articula, o xingamento do “halo brilhante das coisas”. O fato de que é preciso um pouco de padronização para funcionarmos é como se fosse um ponto de fuga de merda numa pintura bonita.

G. O fantástico da situação toda é que, sob certa análise, o corpo, o delírio, o surto poderiam facilmente representar o aspecto revolucionário, o buraco no sistema que permitiria a entrada do que lhe é estranho. O problema é que a teleologia, do ponto de vista de uma narrativa de superação, é a da reabilitação. No fim, o drama se revela uma comédia, e os velhos gêneros teimam em ser úteis, apesar da crítica meia boca. O telos da comédia enquanto gênero nunca foi nada além do mecanismo de reintegração do heroi no seio da sociedade. Da mesma forma que nossos aparelhos digitais são, do ponto de vista da história militar, um acaso, também a comédia faz rir sem querer. 

H. Embrenhar-se em perspectivas e pontos de vista. O fato de eu ler como literatura o relato da autora se deu porque essa literatura é a forma da coincidência, o corpo improvável que a experiência do surto tomou para transmitir verdade e valor. Literatura-sem-querer, botões mágicos escondidos no universo como os de um controle de videogame, pressionados por alguém em frenética desarmonia com a sequência esperada, causando sem querer um rombo no céu.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Aufschreibsysteme 2000

Signal-to-noise Ratio


No qual Frederico Kittler resolve todos os problemas do mundo com um poema

_

In less than two hundred years,
mathematical telecommunication made
the Signal to Noise Ratio
into a throughout manipulable variable.

Together with the operational limits
of the systems of everyday speech,
the limits of poetry and hermeneutics
have been crossed
and media
have been established.

Notwithstanding all consumer marketing,
one can no longer be sure
the addressee of these media
is still called Human.

Ever since its Greek origin, poetry served
to reduce a sonic chaos
into writable and therefore
articulable tones.

Ever since its Romantic origin,
Hermeneutics served to scientifically secure
this reduction of complexity
once more:
by attributing to the addressee a poetic subject
called Author.

This interpretation cleansed the interior
of all noise, which nevertheless
never ceased not to cease
in deliriums and wars.

Ever since noise in the interception of enemy signals
is no longer confronted by means
of the interpretation of
articulated speech or tones,

the burden of subjectivity
has been lifted
from our shoulders.

After  all,
automatic Weapons
are subjects
themselves.



https://www.academia.edu/2321975/On_Friedrich_Kittler_s_Signal-Rausch-Abstand_2012_