sábado, 3 de setembro de 2016

Essa lanchonete costumava ser barata

e escura como uma caverna
agora reformada, pronta para os turistas
móveis vermelhos e azuis
sob constelações de luzes
conseguiram apagar
todas as manchas


no cardápio o sanduíche mais barato
superfaturado
não deixa sombra de dúvida
tudo ao meu redor desmorona
lentamente


a varandinha cria uma falsa
perspectiva da rua à noite
em duas dimensões
uma pintura noturna onde homens
bem vestidos parecem ir de encontro
aos mendigos emergidos
com a chegada dos turistas


uma mãe negra enterrada em cobertores
grita com um bebê de colo
um turista deixa uma nota
carregando caixas de chicletes
entram as filhas


que sol nenhum
poderia apagar


alcanço minha carteira
onde não há dinheiro algum
a menina diante de mim
magra e desconfortável
no corpo espichado do dia para a noite
espera me olhando

envergonhada e digna

ela não quer dinheiro
só um doce
que mando incluir na conta


me ponho a fazer cálculos
e quando ela reaparece
e diz, tremendo de tímida,

a boca cheia de doce
obrigada, moço
chego ao valor exato
do desespero

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Para Helena da operadora NET

Oi, é ele de novo.
Como você pode esquecer a cada duas horas
quem há semanas ouve sua voz
e te diz não?
Ou talvez você só queira ouvir a minha?
Ouvir não todos os dias
e sentir, como um apaixonado,
a autoestima baixar na mesma medida
em que cresce o sofrimento engrandecedor?
À minha voz parece não seguir
necessariamente a memória de mim;
Talvez seja que não existe isso de non sequitur quando se ama.
É disso que se trata, no fundo, então, Helena?
quando você me pergunta se eu “amo” estar conectado
e vem me oferecer maior capacidade
de velocidade, conexão mais estável
e promoções de pacotes infindáveis
de dados a fim que eu diminua todas as distâncias
imagináveis entre mim e pessoas queridas,
objetos de obsessão remota,
tragédias e tristezas patenteadas, correndo em cabos corporativos
no fundo do oceano
chegando ao meu braço em riste, cara iluminada
e desembocando no meu sangue?
De fato, eu bem poderia ser
sua vítima perfeita. Sua voz é bonita e sou
um funcionário do mês exemplar,
recebo o pagamento direto na veia.
Só que, para mim, são outros tempos,
então não ligue novamente, Helena.
É vício, não amor.
E assim como o viciado é um refém,
essa será sempre a condição
daqueles que decidirem, infelizmente,
analogicamente, eliminar a distância até ele.
Já que você ouve bem, vou explicar
por que me ligar não vale a pena.
Uma dia, Helena, quando eu estudava alemão
chegou a minha vez num jogo; fechei os olhos
e uma amiga colou na minha testa um post-it
com a palavra Dichter. Todos aprovaram
a dificuldade e a ironia da palavra
em relação ao tema “Arbeit”, trabalho.
– Sind meine Hände wichtig?
– Natürlich! Du arbeitest mit deinen Hände!
– Arbeite ich zu viel?
– Das kommt darauf an.
– Erhalte ich viel Geld?
– Nein, kein Geld.
Kein Geld, Helena,
mas não por eu estar aqui distribuindo
as ironias de ser-me oferecida
mais internet
– por overdose de sentido eu não morro –
em versos,
enquanto eu poderia
(diz a fórmula de um CEO para ficar rico na internet)
[Limpa a garganta; ruído de telefonia sucateada]:
“pegar um desejo humano,
preferencialmente um que exista há muito tempo...
e usar a tecnologia para simplificar tudo.”
E sim porque justamente peguei um desejo humano
que existe há muito tempo, e que
flui na forma simplicíssima, altamente tecnológica
de luzes e sons. Eu o peguei como a uma doença,
e o organizo aqui como ele o foi
[Ruído de mídia obsoleta]
da primeira vez, milênios atrás, precisamente de forma a
existir uma tecnologia
que fosse capaz de cantá-lo
através desse teu nome antigo,
Helena,
e o que ele destruiu e criou.




segunda-feira, 23 de maio de 2016

Carta de amor e política (pt. 2)

Março de 2016

Não só os vidros para o lado de fora do bar, absolutamente tudo você transforma em cerca. Sei do jogo que você menciona, entendi tudo. Depois de jogar, você sai na rua e a experiência do jogo fica guardada, saudosa, é um lugar pro qual você gostaria de voltar, e não uma camada que você transpõe à rua. Um castelo em ruínas ao por do sol em CGI não tem nada a ver com uma construção na rua, com o centro da cidade, com uma formação específicas de pedras na praia, e o por do sol é invisível, mera astronomia, mapeada, explicada. Pessoas à sua volta, cheias de expressão e realidade, não são parecidas com pessoinhas em pixels, que você pode preencher. Ambos são lugares diferentes. Os mendigos zumbis, pelo contrário, são mais reais que os que te interpolam na rua e te enchem de culpa. A esquerda é brasileira, o brasil é brasileiro demais, e os gifs da internet não são brasileiros, são coisas de internet; ou então o brasil real só existe na internet. Cercas por todos os lados. Para não dizer de relacionamentos com outras pessoas. Você nem tem mais expectativas pois sabe no fundo da alma como tudo é decepcionante. Você cria uma razão e a transpõe para tudo – a única coisa que se relaciona com as outras – e compulsoriamente procura os sinais dessa razão que você depositou em cada experiência, até encontrar. E então se decepciona e se orgulha: estava mesmo certa, afinal. Caso não a encontre, tudo é aterrorizante e você recua com medo, como se pulasse a cerca. Seu medo é reconfortante.

Tenho desinteresse e indiferença por tudo que não é você, mas assim não dá pra viver, então me obrigo a criar links, a conectar tudo. Olha.

Eu esperava um manto sagrado de verdade, mas o que vi brilhando num post sobre as manifestações era só uma camisa do flamengo. Alguém denunciava a blasfêmia de se vestir com uma algo historicamente pertencente ao povo numa manifestação inegavelmente branca – um flamenguista reclamava. Lembrei de ti e temos esta que segue, que escrevo enquanto tento comer um pão na chapa como você, um triângulo de torrada abocanhada desaparecendo como num jogo, enquanto olho a rua onde ontem mesmo ateus e cristãos dançavam tentando despachar a entidade da corrupção. Corrupção, para eles, é obra humana, mas o ato coletivo, compartilhado, era ritualístico, e nunca conseguirão despachar algo que nem sabem aonde pertence.

Nesses momentos até mesmo a camisa do flamengo brilha, e as manifestações são exconjuros coletivos. Por toda parte vejo os canais que conectam as coisas, ando na rua e ouço vozes de TV vindo da malha de cabos de energia nos postes. O Brasil está viciado em notícias, como aguentam tanta notícia, na verdade feitiços impedindo que o enfeitiçado veja o canal em cuja água nasce a miragem dos fatos. O facebook é uma assinatura de jornal compulsória a que todos somos obrigados, e o único contrafeitiço que conheço é deixar-se tomar por este estado em que o canal, os canais que conectam, se tornem visíveis.

Minha internet esbarrou na do flamenguista revoltado, e na falta das forças da lei de outrora garantindo que ninguém deixe de ver o sagrado, o encontro dessas duas internetes, entre mundos inconciliáveis, revela a possibilidade de um canal.

Foi nas manifestações de março passado, há exatamente um ano, que descobri isso. Escrevi uns versos onde eu destacava o canal através do qual eu pude saber da existência dessas pessoas na rua. Apenas tentei destacar o tom, a textura, a materialidade daquilo que eu não conseguia – que o espectador não consegue –deixar de decodificar em sentido, em “informação sobre o Brasil”. Bastava transformar em escrita o que era dito na TV que o canal entre a materialidade e o sentido se revelaria. Mas, ao invés de deixar que o canal de comunicação trazido à tona bastasse por si próprio, cometi o erro de produzir um argumento explícito, embora também tendo a ver com comunicação e meios e canais, afirmando que toda guerra de comunicação não passa de linhas de ideologia, morimbundas, tentando aumentar suas fileiras.  Hoje meu argumento fede a indiferença e insignificância. Mas ainda gosto de transformar gente de vídeo de internet em frase, como se destituídas da confusão de serem pessoas e fossem reduzidas às suas vozes e seu sentido, que são o que realmente importa nessa guerra.

Você não discordaria que hoje a internet está ligada ao desejo. Ela responde ao teu impulso, e você tem o impulso dela. A velocidade de conexão equivale à velocidade do desejo. E teu corpo é esse meio.

Quando acabou a luz, aquele dia, e toda conexão foi cortada, você se irritou. Não com o governo, não com as empreseas de energia. Você não jogou alguém pra arder na fogueira, você simplesmente se deixou queimar.  As estrelas apareceram mas você se cegava com a luz do computador movido à bateria, olhos iluminados no breu, assistindo ao último reservatório de energia do bairro se extinguir. Não quis saber do que acontecia lá em baixo. Da janela eu ouvia gritos nas ruas, e falei para me sobrepor ao medo do escuro:  “basta a pequena ilusão de termos voltado à pré-história que as pessoas já se aproveitam do teatro que é a falta de energia”. Começam a sair na rua se achando na festa da vila, lanternas de led dos celulares como tochas. Um casal passou de bicicelta, gritando e rindo, curtindo a luz dos carros que se viravam como podiam sem os semáforos, promessas de caos, nostalgia prematura pelo pós-apocalíptico, na verdade saudade do netflix. (Sei que isso é o meu vício em luz falando por mim.)

As notícias do poder perderam toda a importância e adquiraram a qualidade de um sonho esquecido: sem energia, a distância infinita entre nossa província e o Império foi restaurada, e portanto não tínhamos nada a ver com isso, saiamos na rua e zoemos a porra toda.

O que é a rua? A rua sem luz é a rua sem política. A rua sem luz não é mais apenas a distância terrível, infinita, entre A e B, que você é obrigada a percorrer e sofrer. Todo o seu problema com a política se resume no seu medo da rua, revertido no seu desejo de permanecer entre quatro paredes, banhada por luz e informação.

Eu entendo exatamente o que é essa coisa da rua que se aloja no teu corpo, mas não vou cometer a indelicadeza de mencioná-las.  Sei que no fundo você se declara de esquerda, mas a maneira com que você foi levada a se relacionar com a bandeira máxima deles te faz se sentir hipócrita. Acho que não dá pra dizer de todo mundo que vomitam política tão literalmente.

Se te escrevo isso é porque sinto que não tenho nada a dizer aos meus amigos, todos já estão certos de sua política, e é inútil gastar meu tempo produzindo coisas que, na melhor das hipóteses, só vão reiterar a certeza de quem já está certo. Não que não seja inútil de qualquer maneira. Mas você tem algo a teu dispor algo que quase ninguém tem. Do seu terror com a política para o estado de graça é só um salto.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Carta de amor e política (pt. 1)

"É o seguinte, e não espero que você entenda. Acho que sou de 'esquerda' mas antes de você deixar isso afundar, digo logo que não me sinto autorizada a ser nada, não sou nada. Não consigo lidar nem com dois quarteirões sem sentir uma fortaleza se armando aqui dentro. Preciso mesmo, o tempo todo, me defender. Até na padaria, um caminho seguro e tranquilo, e lá vou eu, armada até os dentes. Sorrio, digo boa tarde, boa noite, sou educada, sou prestrativa, mas estou cem por cento do tempo atenta ao canto de olho, meu corpo todo empenhado em vigiar invasões nas fronteiras. Chego em casa direto para o banheiro e vomito, suando, lacrimejando. Tento vomitar em silêncio, não quero ninguém vindo segurar meu cabelo. No curto período de alívio enquanto meu estômago se prepara para a próxima, me armo novamente contra as risadas dos meus pais cozinhando o jantar, que nesse estado parecem escárnio puro e simples, usurpadas em seguida por uma cara de súplica fingida. A culpa é imensa. Querem a comida que não vou comer, e quem tem fome não distingue entre fingir e suplicar de verdade, são esses que seguram meu cabelo, rindo do meu estado.

Lavo a boca e enxugo o suor, me sento à mesa e arranjo um sorriso na cara. Tento conversar mas só consigo reagir, responder, regurgitar educação. A comida é posta na minha frente e o cheiro imediatamente me enjoa. A cada riso, a cada dente banco mostrado, a cada pergunta sobre minha vida, me sinto mais fraca. Engulo a comida sem mastigar, ponho na verdade papel higiênico molhado na boca. Não tenho fome. Precisaria comer por respeito à fome que deveria sentir, mas tenho que respirar fundo para sufocar o enjôo com muito ar, pois ainda tenho pulmão jovem e saudável. Devo manter a barriga vazia para poder reclamar. Nunca pus um cigarro na boca, e o ar que meus pais soltam quando riem é o ar que me é roubado por essas gargalhadas, que imagino enquanto olho o prato para não olhar para eles .

Estou tentando ser sincera. Que direito meu corpo tem de se revoltar só porque algo dentro dele decidiu se afundar por vontade própria? Que tenho eu a ver com isso?

Sim, meu portugês é “bom”. Saiba que, apesar do orgulho com que exibo minhas notas na mesa de jantar, sou a pessoa mais facilmente educável do mundo. Não tenho nada dentro de mim a não ser comida recusada e muito espaço de sobra. Assim se aprende qualquer coisa.

Na rua é a mesma coisa: “aprendo” o que você ignora.

Quando não posso mais ficar na mesa fingindo estar bem, peço licença e levanto. Nesse momento as risadas cessam e os dois me olham contornar a mesa. Quando vou deixar a sala, meu pai fala (imagino) para seu prato: “Criatura egoísta”. Lavo a louça e vou para o meu quarto e tranco a porta com força, para parecer egoísta mesmo, para repetir na minha própria língua, segundo minha própria vontade, as palavras dos outros que se meteram no meu estômago (ao lado das minhas outras palavras, do português inteiro.)

Sou realmente a pessoa mais egoísta que já vi, agora eu que digo isso.

E é nesse estado que ligo o videogame e tem início o processo de esquecimento. O enjôo aos poucos desaparece. Sim, em algum momento vou ter que sair na rua novamente, e penso, sim, claramente, que não é isso que vai me ajudar. O segredo é não dar muita atenção a esse pensamento, deixá-lo passar varado como um pássaro indo cuidar da sua vida. Que tenho eu com isso?

Jogo um jogo — você não conheceria mesmo se eu falasse; aliás, te mandar isso é como escrever para a própria língua portuguesa, monstruosa, antiga, às vezes domável e amável, mas que se esforça para se enfeiar de modo a corresponder aos novos tempos — jogo um jogo que contém muitos, muitos mendigos, é uma cidade tomada por mendigos, e claro que eles querem me fazer mal. E não sinto nada, nada. Eles são legião, mas eu também sou. Agora me sinto a porta-voz do meu povo, um povo que não sente nada, que só joga, e que no tempo livre domina seus meios de comunicação, povo ao qual vocês prestam respeito todos os dias, vocês inteligentes.

É mentira, sentimos muitas coisas. Veja: não ando mais de bicicleta, não vou mais ao cinema, faz anos que não vou à praia. Nenhuma dessas coisas se compara ao que sinto quando jogo. Viu? Tenho certeza que não.

De resto, tudo que eu sinto dou descarga.

Vou te contar uma perversão: quando vamos comer fora, insisto sempre que sentemos do lado de dentro dos restaurantes e bares. Na verdade, entro direto, atravesso as mesas ao ar livre, passo pelas portas e fico o mais longe possível dos vidros que dão para a rua, enquanto meus pais ainda procuram um lugar com uma vista bonita. Se acontece deles ganharem e eu não tenho mais desculpas, e tenho que sentar do lado de fora, passo o resto da noite me defendendo, sinto concretamente meus reflexos engatilhados nas minhas juntas. Já parou para pensar nos reflexos? Nunca faça isso, siga meu conselho. Caso decida prestar atenção neles, pensar neles, eles que justamente prescindem de qualquer pensamento, vai acabar descobrindo que nosso corpo é de fato uma fortaleza automática, aperfeiçoada depois de muita bala a ponto de agir sozinha sem a intenção do mestre, que de todo modo só possui seu alto cargo por causa de acordo político.

Não me diga que não sou “afetada” pelas coisas, só porque estão separadas. O afeto que vocês falam é só um afeto entre muitos. Por causa dos meus vocês me expulsariam do clubinho, sei bem.

Mas te mando isso na pausa do jogo que estive jogando há duas horas, já estou distante do que me fez começar, e não vou reler nada.

Você me perguntou porque não me importo com política. É isso. Sinto que deveria terminar catando as peças de um coração no teclado, mas acho que você o receberia empapado em bile. Tchau."

Parte 2

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Kafka sobre a psicanálise

Dizes, Milena, que não o entendes. Procura entendê-lo chamando-lhe uma enfermidade. É uma das numerosas manifestações patológicas que a psicanálise acredita ter descoberto. Eu não o chamo enfermidade e acredito que a parte terapêutica da psicanálise é um tremendo erro. Todas estas chamadas enfermidades, por tristes que pareçam, são manifestações de fé, esforços de pessoas infelizes para se agarrarem a alguma base maternal; é assim como a psicanálise considera, por exemplo, que a origem das religiões é exatamente isso que, segundo eles, constitui a origem das "enfermidades" do indivíduo; por certo, hoje a maioria carecemos de um espírito religioso comum, as seitas são inumeráveis e reduzem-se a pessoas isoladas, mas talvez isto aconteça somente diante do olhar dominado pelo presente. 

Não obstante, essas tentativas de procurar um ponto de apoio, que conseguem uma base realmente sólida, não constituem posse isolada e intercambiável das pessoas, porém algo pré-fabricado em sua natureza, algo que continua criando, sempre na mesma direção, essa natureza (e também esse corpo). E esperam curar isso?

Em meu caso é preciso imaginar três círculos, um interior, A; depois o B, depois o C. O núcleo A explica ao B porque esta pessoa deve atormentar-se e desconfiar de si mesmo, porque tem que renunciar (não é nenhuma renúncia, o que seria muito difícil, é somente a necessidade de renunciar), porque não pode viver. (Nesse sentido, por exemplo, não estava Diógenes gravemente enfermo? Quem não teria sido feliz sob a irradiação do olhar de Alexandre? Mas Diógenes rogou-lhe desesperado que lhe restituísse o sol, esse sol grego, terrível, interminavelmente ardente, enlouquecedor. Esse barril estava cheio de fantasmas.) A C, a pessoa ativa, já não se lhe explica nada, apenas recebe ordens de B. C age sob intensa pressão, com o suor frio da angústia (existe outro suor que brote na fronte, nas faces, nas fontes, na raiz do cabelo, enfim, por toda a superfície do crânio? Assim é o de C). De modo que C age mais por temor que por compreensão, confia, crê que A explicou tudo a B e que B compreendeu tudo bem e lho transmitiu bem.

Franz Kafka - Cartas a Milena  (Editora Itatiaia)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

WPP

(interlocutores omitidos)

– Eu me achava velho quando escrevi na internet anos atrás:
“Sofra, mas sofra logo, antes que existam contas a pagar”

Quando sofrer era na internet
Ou para a internet
Ou diante da internet
“Sofrer”
A diferença entre hoje e então 

Além de não se precisar mais ir ao sofrimento
É que então sofria-se, por assim dizer, 
De forma desengonçada e espaçosa.
E hoje, justamente quando ela é onipresente e onisciente,
Eu começo a senti-la como um mero objeto
Que se usa ou não.
Um troço que existe no mundo assim como caneta e cortador de unha
Que se usa ou não.
E meu sofrimento na Internet sai espaçoso e desengonçado,

Um estagiário precarizado, grisalho
Batendo ponto na Internet.
Aqui, adolescentes são os funcionários do mês.

– Já que você não quis vir jantar comigo, 

Prometi a mim mesmo que comeria sozinho. 
Realmente sozinho.
Mas cá estou, digitando essa mensagem.
Na mesa ao lado, uma moça mexe no celular.
Onze da noite e ela com celular e coca-cola e um prato de peixe 

Intocado,
E ela chorando com os polegares como se jogasse Game Boy.
Afasto esse climão pré-fabricado de solidão urbana
Quando um senhorzinho com camisa da CBF começa a gritar
 putaria 
Na calçada, resolvendo meu problema.
Signos de solidão urbana engolidos por signo maior.
O mundo deu um passo para trás
E você aguente o textão.

– Tem-se tentado entender o Eu na internet com jargões paulistanos
Marketing Pessoal, Social Media
Todo mundo se vendendo o tempo todo
Se é de graça, você é o produto
Assinamos todos um pacto 
em troca de existência e narração
E tudo o mais.
Que seja, mas para existir
Tem que saber mostrar a sua irrelevância no bom sentido
No sentindo engraçado
No sentido internet
O que acontece na sua vida offline é irrelevante
Quanto mais deprimidos mais internet, sim.
Mas tem que ter tem e tem que pá.

– Não aguento mais peixe morto. 
Ser ignorado me faz pensar em cartas. 
Uma carta é lenta e lúdica, enquanto nós somos imediatos,
Você disse uma vez.
Olhe uma carta por muito tempo 
E a nossa troca parecerá ficção científica, realmente.
Mas carta era ponte entre alma e texto.
(Ainda que essa chuva nos iluda com miragens de pontes sob nós)

Enquanto nós nos escondemos. 
Na carta, esconder-se custava caro.
Aceito que tenha havido quem preferisse não atravessar a ponte 
Parar no meio do caminho, encostar na beirada 
E contemplar as águas correndo lá em baixo
Feito um suicida.
Uma vida escrevendo mensagem de texto

Retirando do bolo de traumas de infância
Estratégias e técnicas de desvio de atenção,
Como se obrigasse seu mensageiro a atravessar o Império
Carregando notícias falsas e incendiando pontes.
Como não se sentir esvaziado,
Sugado de vida, de alma
Depois de uma vida sabotando pontes
Com precisão militar?
É esse o desperdício.
Não é o tempo, é isso que se perde.

– Olha, difícil saber.
Achei esse um bom parâmetro, aliás:
Ela sofre na internet ou não?
Tempo!
Ela posta sofrimento e pede sentimento
Ou posta felicidade na internet?
Felicidade é sempre mais sutil

Em se tratando de alma.
Porque a internet vira a ponta de um iceberg
Que por descomunicação e arrogância esbarra em você
Como ingenuidade, tosqueira.
Hoje, que Internet não é feita por curadoria própria,

Erguida nas adjacências da própria alma? Não a sua.
Ela, não sei se sofre, pois não posta.
Tem a vibe, mas não posta.
Difícil essa idade sofrer sem postar.

- “Escrever cartas é na verdade se envolver com fantasmas; não só o fantasma do destinatário mas também o fantasma de si próprio. Pode-se pensar em alguém distante e pode-se agarrar a alguém que está perto – todo o resto está além das nossas forças. Escrever cartas, por outro lado, significa expor-se aos fantasmas, que estão ansiosamente esperando por isso como famintos. Beijos escritos nunca chegam ao seus destinos; são bebidos pelos fantasmas no caminho. É esse amplo alimento que os possibilita se multiplicar. De maneira a eliminar esse poder dos fantasmas e conseguir alguma comunicação verdadeira entre humanos, foram inventados trens, carros, aviões – mas não adianta mais. Os fantasmas inventaram telégrafos e telefones; estão calmos e mais fortes. Eles não morrerão de fome, mas nós pereceremos."

– Falemos claramente.
Talvez você, seus nervos,
Tenha captado os índices do meu corpo que dispus aqui.
Assim como achei que houvesse processado os teus.
Mas estamos nos domínios do fantasma. 

Não me peça mais isso.
Na idade média, signos mágicos eram inscritos em papéis
Que, ao serem ingeridos, curavam doenças.
Comer um signo é absurdo?

Por acaso se come alguma outra coisa?
Papéis, mágicos ou não, são fáceis de colocar na boca e engolir.
Se isso te parece um absurdo
Que dirá de nós, que nem comer inscrições do nosso corpo

Nós podemos?

– Ingenuidade, sim, 
Porque no fundo a sua raiva diante dessas pessoas,
Tão ingênua quanto a ingenuidade que você critica,
É porque elas não dominam as ferramentas tão bem quanto você. 
Mas quem domina quem? 
Você as está usando ou sendo utilizado? 
Daqui, o que vejo é o seguinte:
Você foi obrigado a dominá-las. 
Percebendo desde cedo que viveria para sempre aqui,
Foi preciso aprender a apertar os botões da maneira certa
Unicamente para que a interface respondesse
Mais ou menos de acordo com a sua vontade. 
E foi longo o aprendizado. 
Sua adolescência, você não tem coragem nem de lembrar. 
Antes de reclamar, pense nas suas origens, 
Pense no seu aprendizado,
No quanto você foi completa e irreversivelmente 
dominado.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Schreber, Kittler e uns nervos


Daniel Paul Schreber era diariamente submetido a 0,3 gramas de ópio como parte de seu tratamento médico. Mesmo que não ingerisse tanto ópio (e ingeriu), “o restante das neuropsiquiatrias experimentais de Flechsig [o famoso médico de Schreber] já seriam o bastante para transformar qualquer um em paranoico”. Assim comenta Kittler. Os experimentos médicos de Flechsig “apenas puderam ter sido o salto equivalente ao entre o da Idade Média e a Medicina que foram porque ele dispensava todo idealismo, todo aquele papo romântico de alma e espírito”. Nada que não pudesser ser localizado e experimentado era digno de sua atenção. A medicina de Flechsig e o furor cientificista justificavam que um louco como Schreber fosse submetido aos experimentos de Flechsig, já “que nada poderia ser tão horroroso quanto aquilo a que seus próprios nervos o submetiam”. 

Pouco tempo antes, após tentativas frustradas de localizar no cérebro humano o exato local onde produzia-se linguagem, um outro cientista se rendeu: “é como se sofrêssemos de normalidade!” Deixem essa frase afundar um pouco. Procurava-se um orgão com uma etiqueta escrito ‘aqui produz-se linguagem’ – dominados pela excitação do primeiro Orkontro da medicina. Lindo. De todo modo, esse é o comentário de Kittler, que já foi acusado tanto de um cientificismo análogo ao de Flechsig (por causa da obsessão por documentos, por plantas, manuais de instruções da Microsoft, matemática da comunicação, nerdices sobre a Segunda Guerra, Hegel), quanto de ser um hippie nostálgico por uma década de 60 ilusória que, na verdade, nunca teria passado de uma mistura dos Estados Unidos de Jimi Hendrix com a França de Foucault e cia.

Quanto mais aquele que foi marcado pelo estigma da loucura tentar ser racional, tentar falar calmamente, explicar seus motivos, demorar-se tanto em seu método que acabe parecendo alguém implorando por compreensão, enfim, quanto mais aquele que se valer, mesmo que brilhantemente, de ferramentas que não deveriam pertencer-lhe, para livrar-se do estigma, tanto mais a marca da loucura brilhará. Na boca do louco a razão é monstruosa, pois utiliza com paciência insuportável as ferramentas que utilizamos suavemente. Daí que o louco perde porque é mais racional, racional demais. Como uma criança com uma ferramenta pesada. Isso tudo é evidente. 

Freud, no entanto, disse que “Schreber deveria ser o diretor do asilo em que encontra-se agora como um mero paciente” (não lembro a citação exata). Por que? Schreber fala ora como um cientista, ora como um xamã, ora como um estrategista de guerra, ora como o espírito da razão, ora como um jurista declarando uma sentença insuportavelmente razoável. Nem Freud duvidava do conhecimento divino que Schreber dizia ter alcançado, essa nem é a questão. Tendo sido submetido a tais tratamentos, Kittler leva (como é seu costume, e como é o costume de quem tenta ouvir o interior das mídias) bem a sério as palavras de Schreber no prefácio de sua autobiografia: ‘escrevi meu livro para provar minha sanidade’. Schreber escreveu sua autobiografia pra vazar dali. Seu livro é uma contraforça. Kittler nunca disse que Schreber era ‘normal’, ou que não precisasse de tratamento. O Deus torturador das alucinações de Schreber, que envia nervos do céu para se comunicar com o jurista, Kittler diz tratar-se do próprio Flechsig, que obteve direito legal de dissecar os nervos de Schreber antes de sua morte. “Bodies lie like corpses along the technical path to the present”, afinal. É meio bobo mas não menos triste que pra nós, cheio das ferramenta, cheio das luzinha, o conhecimento adquirido por Schreber fica inacessível. Em outras palavras, o resultado disso é a tendência inevitável de ler a autobiografia de Schreber como literatura, que Kittler tenta combater, para dizer que (e adicionar mais uma nota aos infindáveis leitores-escritores de Schreber) ela pode ser lida também como um escrito técno-científico sobre 1) a tendência da ciência de só conseguir conhecer o que está morto (ou impessoal, ou despersonificado, desapaixonado) e 2) o que escutaríamos se conseguíssemos (sem adoecer) oferecer nossa completa e irrestrita atenção aos nossos nervos. Para Kittler, Schreber trata da linguagem dos nervos mesmo. Alma vai, alma vem.