segunda-feira, 14 de maio de 2018

Corpo e alma, pleonasmo

Quem escreve

“entreguei meu coração”

Não faz senão reanimar um órgão parado.

Há locais de concentração.

Um sentimento vago, generalizado

a tristeza

precisa ser localizada

Frost fala de cicatrizes do corpo-e-alma

e Marvell de uma alma tão longa

que empala o corpo. Tem ainda quem

não consegue dizer nada sem lotar textos  de corpos

E não é que eu separe mente e corpo

como os inventores da lâmina


da pólvora e do Geist

Não é nenhum instrumento de laboratório nem um juiz 

pedindo reintegração de posse quem diz 

o meu corpo

Dê mole e um acadêmico surgirá e dirá que nunca nada foi separado

Que quem tem o corpo marcado

sabe que a alma, atrasada, vem depois. 

Somos vítima de fofoca, eu e você

Ah como seria bom descansar de toda essa violência 

na rede do espírito

do pensamento mítico-científico e conversar sobre pesquisas na área de humanas

enquanto as cachoeiras fazem

Geisteswissenschaften

Geisteswissenschaften

Sobre como o brasileiro sabe mais que o alemão

já que nossas ciências do espírito são é humanas

Mas o pleonasmo brasileiro precisa ser cavado no próprio peito sofredor

Para o corpo aprender quem sente a doença que se diz do espírito

Entender que ser só corpo é loucura

relaxar para nunca mais ter paz

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Literatura e escapismo

Kenneth Burke disse há muito tempo: Literatura é [nada senão] equipamento para a vida. É preciso estar equipado quando se viaja e também, talvez principalmente, quando não se sai de casa. Uma vez, anos atrás, quando ainda viajava, pedi indicações de livros de ficção que tivessem a ver com o lugar aonde eu ia. Então uma pessoa me disse: ler em viagem é perda de tempo e dinheiro, é preciso aproveitar os lugares. Sempre me lembro disso, e me lembrei hoje, ao esbarrar nesse trecho de Alice Munro: “Odiava quando usavam a palavra fuga para se referir à ficção. Podia argumentar, e não apenas de brincadeira, que a vida real é que era uma fuga.” Desato agora esse nó. Invejo quem, munido só da sua pessoa, sua carcaça e pensamentos de sempre, tiques e velharias, consegue acreditar estar bem equipado. Talvez esse seja um aspecto do turismo: se desequipar de tudo para acreditar ir ali mudar rapidinho de vida. De todo modo, nem é preciso fugir para tão longe. Sem equipamento é fácil ser turista até na própria cidade, na própria casa, no próprio corpo.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

poesia e dinheiro


Uma alucinação bem carioca.
Toda palavra
de todo livro de poesia contemporânea
que abro
é feita de dinheiro.

Essa jovem poeta
acaba de publicar seu primeiro livro
e terminar o segundo.
Longe dos trens
onde o mapa é o território
onde tudo já foi nomeado e tudo é familiar
faz dos bairros da costa sul
ilhas desconhecidas uma antiga carta náutica

Num bar em Botafogo, centro das atenções,
Perde o equilíbrio,
Ri, cambaleia e me confidencia
não me sinto feliz como deveria

Mas ao publicar seu primeiro livro
Salta na Central do Brasil.
Vai pegar um trem pela primeira vez
ramal Japeri
o maior e o que mais a afastará
do teatro do mundo.

No meio da multidão da Central
sorri para não se destacar.

Na janela do trem a paisagem
é marrom-tijolo
Será o mesmo céu?
Inseparável do azul do mar
aqui ele se aparta bem da terra
que judia.

Vai em pé como se dançasse
uma dança desajeitada no meio do vagão.

E se a estranheza que tanto busca
não viesse justamente
de coisas bem familiares?

Passou uns minutos em Deodoro
e voltou a Botafogo.
Na cafeteria da livraria
relaxa os músculos
e o mundo se desdobra como uma carta náutica

O dinheiro
nasceu como figura de linguagem:
a cédula era a metonímia
para o ouro enterrado no subterrâneo do reino.
Livre da ganga material
o dinheiro reencontra suas origens
na poesia. Ambos valem por si.

Poesia brasileira contemporânea
e sua relação com o Capital no século XXI
simpósio na PUC-Rio
segundo semestre de 2020.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Hipster com pau de selfie

É verdade.
Quem olha poderia jurar
que é um professor de História
no Forte de Copacabana.

Olhando gravemente o mar
por onde entrou Villegagnon
e os morros que já não mostram
Jean de Lery entre os Tupinambás.

Um naturalista da expedição
de Langsdorff.
Um escriba da embarcação de Villegagnon
Um comunista levando tiro.
Um professor de História do cursinho.
Seu homem ideal.

Da mureta à Guanabara aponta uma luneta
Ou uma espingarda ou uma espada
É guerra aos banhistas, ao passado
à nossa alma.

Quero saber quem fortificou o forte em História
e a pendurou num museu.
Aqui a foto dele
e adeus.

(Forte de Copacabana, 2015)





































terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Leitura de ficção versus leitura de feeds e timelines

Por que ler ficção causa alegria e ler feeds e timelines causa, principalmente, tristeza?

Enquanto quase se convencia da razoabilidade da defesa de Jesus, Pôncio Pilatos obedecia de modo automático ao poder do Estado, isto é, lia mentalmente um feed infinito de leis. Jesus representou para Pilatos a possibilidade de escapar do sentido pronto, autoritário, das leis. Foi ignorado. Ao condenar Jesus, Pilatos, que já sofria com uma enxaqueca terrível, foi então acometido por uma tristeza inexplicável. O leitor de feeds e timelines é acometido pela mesma tristeza. Ele quer desviar os olhos do feed assim como Pilatos desejou secretamente que Jesus dissesse a coisa certa para salvar-se (e salvar Pilatos). Dedos e olhos continuam rolando informações assim como a boca de Pilatos emitia a sentença de enforcamento* mesmo enquanto sua alma, que não acreditava possuir, gritava por socorro.


Recentemente, durante uma dessas sessões de rolagem morosas e despropositadas de timelines, me deparei com uma thread no Twitter sobre como estudiosos tendem a reprimir a presença marcante da vulgaridade na obra de James Joyce. Dizia o cara que Finnegans Wake, em seu aspecto mais elementar, seria a história de um pênis numa vagina. Mal terminei a thread e continuei a rolagem.

Trinta tuítes depois, eu estava irritado. Finnegans Wake pode ser reduzido a qualquer coisa que se queira, e um pênis numa vagina é só uma imagem do Começo. Vulgar é arriar as calças durante o jantar, não algo que James Joyce tenha escrito. Com um esforço de concentração, larguei a timeline e pensei: dar atenção a essa suposta vulgaridade, sequer utilizar essa palavra, é ignorar que Joyce estava no ramo de implodir hierarquias e oposições: épico e dramático, literário de não-literário, narração e ação, vulgaridade e o que quer que seja seu oposto. Ou seja, implodir a memória RAM da Literatura tornada atividade automática em seus escritores sob a forma de convenções literárias. Implodir não no mundo (para isso temos as lacrações), mas como efeito estético de leitura.

A contínua rolagem havia me impedido de processar uma das informações que são o objetivo superficial e enganoso das timelines, e causado uma sensação de esquecimento, irritação e anestesia. Feeds e timelines, em sua experiência ideal de rolagem infinita, promovem não “sobrecarga de informação”, como diz o clichê, mas sim tédio e vazio, porque promovem esquecimento. Do ponto de vista de uma timeline, é bom que esqueçamos todas as informações, para que tenhamos a eterna promessa de que a próxima nos salvará.

Há uma máquina de anti-esquecimento: ela se chama Ulysses (com seu “leitor ideal com uma insônia ideal”, em quem Borges moldou seu Funes, o memorioso). O livro se passa do lado de dentro dos altos muros de um único dia. Na vida, não é difícil lembrar, à noite, de algo que se pensou de manhã. Mas quando lemos um pensamento banal na página 20, que então é lembrado por outra pessoa só ao fim do dia, na página 800, aí tem-se uma ideia do funcionamento da máquina. Por meio de uma engenharia de informação única, Ulysses esgarça a memória. Uma lembrança de hoje de manhã chega com a mesma carga que uma lembrança de dez anos ou dez séculos atrás.

Enquanto eu lia os argumentos do cara sobre Joyce, cuja matéria prima é esquecimento e informação (de um dia específico, de um localização geográfica específica, constituindo um sistema-fechado infinito), a timeline do Twitter executava em mim, como se eu fosse um aplicativo, esquecimento e informação. Esquecido, demorei para ligar os pontos.

A leitura de ficção, em geral, também depende do esquecimento. É um acúmulo de experiências que vão sendo estocadas linha por linha, e em seguida esquecidas, retidas apenas em resíduos distribuídos num fluxo ininterrupto de experiência e memória. Ao final, o que esquecemos retorna com força e dá o efeito único e particular de toda boa leitura, e nos sentimos vivos.

Feeds promovem, às vezes, alegria, boas piadas, e frequentemente tristeza. E não só por causa de tanta notícia ruim, mas porque lê-se uma notícia ruim e já passa-se a outra. Assim como a ficção, a leitura de feeds e timelines também depende do esquecimento. Mas ao contrário da ficção,  há algo de morte da alma em esquecer duas horas de informação sobre, por exemplo, notícias graves e importantes, que demandam de nós posturas igualmente pertinentes, graves e importantes.

A ficção executa em nós, por meio de progressivos esquecimentos, experiência e vida. Já a timeline infinita, com informações do mundo cruel, nos transforma em aplicativos manuseados por algoritmo. Não querendo perder notícias de tais e tais assuntos, confecciono uma timeline, adiciono e deleto usuários. Nesse mundo reduzido, me posiciono de acordo com o algoritmo que me mostrou o mundo reduzido ao meu entendimento imediato. Jogo o jogo da timeline, deslizando infinitamente, e esqueço do que está na minha frente, como Pilatos com um feed na cara, uma enxaqueca dos infernos, e fico raivoso e triste.



*Tal como a história é contada em "O mestre e Margarida", de Bulgákov

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Imagens do preconceito em Isaías Caminha

ROUPA BONITA

Já no começo, Isaías associa a tristeza da mãe, sempre cabisbaixa, a não saber das coisas, e a dignidade feliz do pai a sua inteligência e conhecimento. Assim teoriza o jovem Isaías: ignorância traz tristeza e conhecimento traz felicidade. Isaías parte para o Rio de Janeiro para virar doutor e ser feliz.

Lá, conhece o preconceito. A primeira experiência racista é sofrida com ingenuidade e espanto. Tratado com grosseria gratuita na rodoviária, Isaías se olha no espelho: avalia sua fisionomia, suas roupas, o semblante bonito, a postura digna, a intelectualidade aflorando. Por que desconfiaram dele e não do outro homem ao seu lado? Por que essa confusão e essa indignação, como se tivesse feito algo errado, se está tão bonito, tão apropriado à capital?

O começo do romance de Lima Barreto se dá nessa chave de ingenuidade, que permite a Lima narrar a “gênese” do preconceito  de dentro, a partir de um sentimento violento na alma. 


Isaías cultivava a alma, o intelecto, a cultura, e agora, confuso, percebe nela essa mancha. Aprenderá a sentir raiva.

A CONQUISTA DA INDIFERENÇA

Mais adiante, Isaías (narrador) relembra do dia em que foi levado à delegacia, falsamente acusado de furto. Isaías tem um surto de raiva e xinga o delegado. Vai preso.


Contudo, o Isaías velho e calejado que narra suas memórias recorda com saudade esse episódio da juventude, quando ainda era ignorante à respeito do por quê de de tanta diferença e preconceito, e portanto ainda respondia às afrontas com indignação exaltada, quando ainda resistia e lutava pela indiferença, pela invisibilidade, pelo direito de cultivar recatadamente uma postura gentil, sensível, como lhe demandava o espírito educado. 

A raiva dos anos de juventude é uma memória acalentadora na velhice amarga de Isaías narrador, resignado e ocioso.

INVISIBILIDADE

Diferença entre a invisibilidade de Lima Barreto e a invisibilidade de Ralph Ellison: Em Lima, a invisibilidade é a indiferença de andar na rua sem ser visto, o luxo de não ser “julgado a priori”. Em Ellison, n’O homem invisível, a invisibilidade do narrador é uma espécie de feitiçaria: sua presença dispara alucinações nos passantes; ninguém o vê como ele é, vêem apenas sonhos e representações. O preconceituoso enxergam no Homem Invisível sua própria alucinação e terror. Assim o narrador comenta depois de quase assassinar um homem que o olhou torto graças à sua cor: “imagina o que esse homem não deve ter pensado, quase foi morto por uma alucinação, por uma criatura saída de seus pesadelos!”. Ellison evoca o também americano James Baldwin sobre a branquitude diante do negro: “perdem-se num labirinto intransponível entre a bondade com que pensam e a crueldade com que agem”).

CULTURA DO DOUTOR

Do desejo inocente de sair da roça e virar doutor, passando pelo alto status que a cultura brasileira dá à educação superior, a cultura do doutor persiste ainda hoje sob a forma de piadas. Se ser doutor hoje é ainda tratamento de superioridade utilizado com certo espírito humilde ou irônico, ser doutor para o ingênuo Isaías era ser alegre, sonho romântico de elegância e dignidade e desejo de reconhecimento do espírito. Lima promove uma encenação em registro irônico do romantismo mal digerido no Brasil. A escalada de frustrações e raiva que é “Isaías Caminha” é como uma bildung da materialidade que sustenta a cultura romântica do espírito.


ROMANTISMO

Poucos movimentos culturais foram efetivamente introjetado nos sistemas políticos e institucionais brasileiros como foi o romantismo. O modernismo não sublinha nossas instituições públicas, ao contrário de ideais românticos, como a própria República (de que duvidava o velho realista Machado de Assis).  Pouco antes do golpe de Floriano, os abolicionistas criticavam aqueles que preferiam ver primeiro a república do que a abolição da escravatura, afirmando que de nada adiantaria pensar (romanticamente) numa forma de governo para o povo, se não se tratasse antes do mal que mais o assolava.


ESPÍRITO DO DINHEIRO

Materialidade, romantismo, dinheiro. Quando a miséria se avizinha, Lima Barreto se aproxima de Goethe e Marx. A pobreza faz Isaías ver espírito no dinheiro:

“Os meus únicos amigos eram aquelas notas sujas, encardidas; eram elas o meu único apoio; eram elas que me evitavam as humilhações, os sofrimentos, os insultos de toda sorte; e quando eu trocava uma delas, quando as dava ao condutor do bonde, ao homem do café, era como se perdesse um amigo, era como se me separasse de uma pessoa bem-amada… Eu nunca compreendi tanto a avareza como naqueles dias que dei alma ao dinheiro.”

Marx, por sua vez, busca o espírito do dinheiro em Goethe:

MEPHISTÓFOLES
Então tudo aquilo que vigorosamente eu fruo,
É por isso menos meu?
Se posso pagar seis cavalos,
Não são minhas as suas forças?
Corro e sou um homem probo,
Como se tivesse vinte e quatro pernas.
(Fausto I, cena IV)



e Marx:
“O que é para mim pelo dinheiro, o que eu posso pagar, isto é, o que o dinheiro pode comprar, isso sou eu, o possuidor do próprio dinheiro. Tão grande quanto a força do dinheiro é a minha força. As qualidades do dinheiro são minhas - de seu possuidor - qualidades essenciais. O que eu sou e consigo não determinado de modo algum, portanto, pela minha individualidade. Sou feio, mas posso comprar para mim a mais bela mulher. Portanto, não sou feio, pois o efeito da fealdade, sua força repelente, é anulado pelo dinheiro. Eu sou - segundo minha individualidade - coxo, mas o dinheiro me proporciona vinte e quatro pés; não sou, portanto, coxo; sou um ser humano mau, sem honra, sem escrúpulos, sem espírito, mas o dinheiro é honrado e, portanto, também o seu possuidor. O dinheiro é o bem supremo, logo, é bom também o seu possuidor, o dinheiro me isenta do trabalho de ser desonesto, sou, portanto, presumido honesto; sou tedioso, mas o dinheiro é o espírito real de todas as coisas, como poderia seu possuidor ser tedioso? Além disso, ele pode comprar para si as pessoas ricas de espírito, e quem tem o poder sobre os ricos de espírito não é ele mais rico de espírito? Eu, que por intermédio do dinheiro consigo tudo o que o coração humano deseja, não possuo, eu, todas as capacidades humanas? Meu dinheiro não transforma, portanto, todas as minhas incapacidades no seu contrário?... não pode ele atar e desatar todos os laços? Não é ele, por isso, também o meio universal da separação?" (Marx, Manuscritos econômico-filosóficos)

*


A história termina com Isaías aceito na alta sociedade, desistindo de seus sonhos de literatura e educação. É para chegar a esse ponto que escreve suas memórias: para estabelecer a ociosidade e a resignação. Não tem mais pretensões literárias, pelo menos não com as memórias de um homem humilhado que tenta sustentar o espírito diante da miséria da república brasileira que acabamos de ler. Até a raiva o abandonou. Nesse começo de século vinte, tudo agora está bem normalizado, e o caminho aberto para o vinte e um.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Simone Weil

Olho sua foto.
O óculos, quase uma
formalidade. De estilo simples
ou ausência de estilo.
Um sorriso––irônico?
Não. Você não nos olharia
como olham os olhos em fotos de hoje.
Noutra, o sorriso é sincero, cristalino.
Noutra, um tanto assustada.
Noutra, desafiadora, feroz
Sem paciência
para homens e seus amores platônicos
em sentido vulgar.
É outro o teu Platão.
E tendo vivido
e morrido como viveu e morreu,
o chão da fábrica, a fome
os cadernos onde filosofia, alma e deus
cumprem funções altamente politizadas,
e imaginando que sua própria alma
gigantesca
daria de ombros ao meu olhar,
me pergunto por que nosso amor
a tudo despolitiza.