terça-feira, 1 de novembro de 2011

Da Itália

Sento numa mesinha circular cujo tamanho me faz parecer maior e mais destrambelhado, numa calçada minúscula onde as pessoas têm de realizar uma curva para não esbarrarem nas minhas pernas. Vou pedir um café para um garçom extremamente atencioso, da minha idade, cheio de energia, sem dúvida com experiência em lidar com turistas e seu característico humor involuntário. Café, palavra simples, não muito grande, deve sair pelo menos aceitável se pronunciado com a rapidez necessária, o tom interrogativo no “fé”. O garçom repete café?, num italiano perfeito e fluído, e some dentro do lugar.


As ruas estão abarrotadas de gente. É feriado em Roma, descubro. Os romanos (palavra pesada) caminham em dois fluxos contrários. Mas não sei se são romanos. Com exceção de americanos e japoneses, não há como distinguir italianos de turistas a não ser pelo mapinha surrado e representativamente amigável, idêntico ao meu, consultado a cada esquina, com desenhinhos dos pontos mais conhecidos, o Coliseu, o Panteão, o Vaticano. Do outro lado da rua há um largo com uma fonte, em volta da qual muitos sentam com câmeras fotográficas, cercados por carros e ônibus que passam constantemente numa velocidade italiana, uma variação motorizada e barulhenta da conhecida passionalidade exaltada da língua. Todos parecem apressados, pessoas e carros (smart-cars compactos e velozes, ônibus modernos que de tão baixos quase arrastam no chão) não perdem tempo. Os turistas precisam ver as coisas, as igrejas, as ruínas, os milhões de restaurantes que inundam a rua com cheiro das cozinhas mais conhecidas do mundo. Os romanos, não sei por que correm. Eu também deveria estar correndo.


A pequena fileira de mesinhas circulares do restaurante está quase vazia. Um jovem casal italiano pede a conta, mas a garota ainda come com calma seu sanduíche, um cigarro aceso numa das mãos. Cada mesinha possui um pequeno cinzeiro de vidro, desses que foram extintos dos bares e cafés brasileiros, e me entretenho um pouco ensaiando rasteiramente a diferença entre uma sociedade moralmente avançada e uma retrógrada moralista.


O casal paga a conta e some numa esquina. Com o campo de visão livre, percebo uma mulher de no máximo trinta anos sentada sozinha em uma das mesinhas, um café acaba de ser trazido pelo mesmo garçom atencioso. Ela veste um sobretudo preto, de frio. Será italiana?  As roupas não revelam nada, tampouco os cabelos pretos e lisos, com franja, bonitos. Faz vinte graus em Roma, nublado, mas o sol ainda se esforça entre as nuvens.

Mecanicamente condicionada, minha mente tenta extrair algo da moça de preto, deslocá-la e problematizá-la com alguma tristeza. O olhar dela transita por diferentes pontos no espaço. As coisas e as pessoas desfilam ao redor dela, mas sua atenção não se detém em nada, traça com os olhos o contorno do ar. Pega o café, bebe um gole, coloca a xícara de volta na mesa - ela só mexe os braços e o rosto, ambos com uma calma que desafia a barulheira do lugar. Estaria ela consciente da composição da sua imagem, do seu papel, e também do meu, o de atingido por acaso pelos estilhaços?


Numa rápida conversa com o garçom, ela trai sua italianidade numa fala corrida e decidida, da qual não consigo depreender uma palavra. Caso eu optasse por puxar conversa, teria de lidar com aquela graciosa incompreensibilidade direcionada só a mim, sem poder identificar brechas para piadinhas, quebra-gelo, um desastre. Contentado então com só observar, sou logo descoberto em flagrante quando ela vira o rosto na direção de um grupo de turistas que gritam e apontam para seus mapas, bem do meu lado. Tento desviar minha atenção para o livro aberto na mesa, mas sei que já era, minhas intenções ficam escancaradas no ar, à vista de todos.


Enquanto aguardo o café, tento ler um pouco, já sabendo que não vai dar. Manuseio sem jeito o meu livro, “Microcosmos”, do Claudio Magris, como se de repente houvesse uma maneira universal e correta de fazê-lo - uma mão segurando uma das laterais e a outra a parte superior da lombada, como o homem guiando a mulher numa valsa. Alguns passantes lançam olhares disfarçados. A qualquer momento alguém me abordará pedindo informações, direções para lugares incompreensíveis, em italiano ou em qualquer outra língua impossível.

Chega o café, trazido pelo rapaz atencioso com enorme vontade de servir bem. Ele pergunta Brasil?, o L pronunciado com a língua encostando no céu da boca. Sim, sim, si, si. Um homem senta ao lado da mulher de preto, ele parece americano, é forte, careca, usa um cavanhaque ralo. A mulher não demonstra conhecê-lo, nem dá sinais de ter percebido o intruso. Todo desleixado na cadeirinha, o homem finge inspecionar o ambiente, finge que a mulher não está ali,  o ato que antecipa o bote. O ar pesa com a iminência do flerte. Fico constrangido com as  cantadas grosseiras, fingidamente casuais e óbvias que virão a seguir. Mas a mulher já está pagando a conta, logo se mistura à multidão, a perco de vista no mesmo instante, e o cenário volta para sua costumeira barulheira. Roma segue seu curso, inalterada. Bebo meu café, uma dose rápida e forte, típica do país, e peço a conta. O garçom ri, divertido, provavelmente do meu italiano com consequências em portunhol. Ele ri de mim ou comigo? O que fazer? Lembro de Kafka sentado à mesa, soturno, esperando o mundo se oferecer sozinho e de bom grado, a nosso despeito. Me enrolo para encontrar a quantia certa numa montanha de moedas numa bolsinha e entrego os três euros ao garçom, tentando rir junto com ele.


sábado, 15 de outubro de 2011

Pequena síntese da minha aflição com o filme "Pacific"


Esse trecho é parte de uma coisa bem mais longa que estou tentando desenvolver sobre o documentário "Pacific", de Marcelo Pedroso, feito apenas de imagens gravadas por passageiros (cedidas para Pedroso) durante uma viagem de uma semana a bordo do cruzeiro de luxo Pacific

Por mais que as intenções de Pedroso estejam claras (tem que descer um pouco a pagina), e por mais que as imagens tenham sido cedidas pelos passageiros do Pacific, ainda há algumas questões. Muitos espectadores, dentre eles o crítico Jean Claude Bernardet, além de alguns dos autores das imagens, sentiram-se constrangidos ao assistirem imagens que pertencem a uma esfera tão privada da vida. Elas foram cedidas deliberadamente, sim, porém os passageiros não faziam ideia do que seria feito delas.

A construção final de “Pacific” visa uma ambiguidade. Muitas foram as reclamações de que o diretor havia exposto aquelas pessoas ao ridículo, e algumas delas próprias, ao assistirem o filme, afirmaram o mesmo.  É possível refletir se esse “ridículo” não passa de uma projeção do espectador sobre aquelas imagens, se na verdade não somos nós que estaríamos nos distanciando e nos colocando numa posição privilegiada fora daquele mundo de luxo e excesso, idiotia e constrangimento (ou simplesmente nos deixamos levar pela diversão).

Mas o problema é justamente essa ambiguidade intencional de Pedroso. Não é que ele, enquanto autor e manipulador daquelas imagens, se isente de qualquer responsabilidades sobre elas, e jogue a culpa pela divergência de interpretações no espectador. A questão é na verdade se é possível ou válido (eticamente, sim), se é eficaz utilizar de imagens tão privadas com a intenção de realizar um discurso ambíguo; se a natureza dessas imagens, se suas condições de nascênça suportam o peso retórico que Pedroso tenta injetar nelas. Essas pessoas então teriam suas ações privadas expostas e resignificadas agora dentro de um contexto onde elas praticamente atuam contra si mesmas*, e de forma esquizofrênica (dada a invisibilidade do narrador, de uma suposta inesgotabilidade das imagens). Nessa perspectiva, é fácil entender porque alguns dos passageiros do cruzeiro se mostraram indignados com o filme. E acho difícil culpá-los por isso.

Um exemplo: há uma sequência onde um dos passageiros (o "personagem principal", um passageiro especialmente empolgado em registrar aparentemente cada segundo da viagem. Usei "aparentemente" não por acaso) está filmando seus dois filhos pequenos, uma menina e um menino de seis ou sete anos. As crianças estão brincando na praia. O menino começa a destruir um desenho que a irmã fez na areia. O pai manda o garoto parar, e a menina começa a gritar, um grito que se mistura com risos (mistura tão característica e indissociável), enquanto corre atrás do garoto pela praia, ambos gritando/rindo numa perseguição divertida. A sequência é rápida, mas o ponto de Pedroso parece ser (1) que o pai não intervém, não pára de filmar, é conivente com a crueldade, ou (2) está tão absorvido pela câmera, tão inserido na aura contemporânea (sim) de registro e compartilhamento e autonarrativização imediatas que  ele continua lá, filmando e rindo. A sequência possui um peso todo especial e desconfortante quando inserida naquela lógica narrativa, uma clima ruim, os gritos daquelas crianças reverberam além da conta, e esse peso é a síntese da minha birra. A natureza dessas imagens é a de uma pequena rotina familiar, onde crianças estão sendo crianças, onde a brincadeira/briga foi esquecida antes mesmo da sequência terminar. E, dentro do filme, ela se pretende um comentário, faz parte de uma argumentação maior. E este é o movimento básico do filme. Como injetar significações ou extrair conclusões de imagens dessa natureza? Toda e qualquer tipo de imagem pode ser considerada matéria prima?**

Eu sentiria o mesmo receio de aceitar qualquer argumentação que utilizasse o tipo de veículo que Pedroso utilizou, fosse esse ou outro discurso. O problema não está na crítica, ou no alvo dela, mas sim no suporte. Não consigo sequer começar a refletir sobre o que quer que seja extrafilme com imagens que se movem tão nitidamente, tão obviamente para dentro, que a cada instante evocam as condições de sua gênese. (A história do documentário está repleta de lições sobre a falência metonímica de suas imagens).  O problema aqui é pessoal. Eu não consigo aceitar o que aquelas imagens estão me dizendo, há um constante bloquear: sempre quando, após alguma sequência significativa, ouço mentalmente o clique -- algo acaba de me ser sugerido e faço um aaah táá -- imediatamente outra parte da mente entra em cena e bloqueia a sugestão, desviando minha atenção para a estrutura, pra montagem, para  a invisibilidade deliberada e desviadora de Pedroso. E a presença de Pedroso, enquanto narrador e remontador dessas imagens, acaba soando tão estranha e problemática quanto deve ter sido pra ele estar naquele cruzeiro.

*Claro que essa questão é discutível, e aí entrariam documentários de denúncia, protesto, com ditadores como protagonistas, até aqueles que procuram entender o "mal". Poderia ser argumentado que o documentário protagonizado pelo Idi Amin Dada, pelos meus critérios, também não seria válido porque o Idi Amin atua contra si mesmo, se ridicularizando involuntariamente, dentro da montagem proposta por Schroeder. Mas o meu ponto é que provavelmente nenhum deles utiliza, por exemplo, imagens filmadas pelos próprios personagens. E aí entra a velha questão da não-artificialidade, da realidade sendo mostrada supostamente crua e nua, etc.


**Penso no trabalho de outros documentaristas que se valem de imagens de arquivo, ou filmadas por outros, para montarem seus trabalhos, por exemplo o Harun Farocki, que  questiona (literalmente, dentro do próprio filme, na medida que as imagens vão aparecendo)  as imagens em si, o contexto em que elas foram produzidas, e seu valor enquanto cinema. Não é a toa que ele mesmo diz que "trabalha contra o cinema".

quarta-feira, 27 de julho de 2011

PGOAT.jpg


Olhe essa foto.

A moça não está lendo. Está olhando diretamente para a lente da câmera, com um olhar que pode ser de surpresa, vergonha, ou aborrecimento. Impossível dizer se a foto foi premeditada, se a moça é amiga do fotógrafo, se está em pé ou sentada, se foi surpreendida por um desses artistas com fetiche na ilusão resultante da combinação de beleza e cultura, essas fotografias que representam, através da soma de uma mulher, um livro, uma luz e um enquadramentos bonitos, a sensação de um mundo interessantíssimo se desenrolando, escondido e espalhado na superfície da imagem, sendo vivido somente pela mulher que lê. Talvez a moça da foto estivesse mesmo lendo, e frustrara a intenção do fotógrafo de perpetuar essa linha reconhecível e sempre funcional da beleza, resultando, com ajuda do acaso, em outra coisa, um pouco mais misteriosa, mas deixando intacto o propósito representativo e “bonito” da imagem.

Entretanto, a moça pode ser horrorosa. Tão comum nos enganarmos com essa fotos. Cobertos pelas estampas floridas da capa do livro, pode haver escondidas uma boca exageradamente grande, lábios gordos, dentes tortos e sujos, uma verruga de bruxa, e o nariz bem que parece mesmo se estender, na obscuridade inatingível pela lente, em uma bolota achatada. Haveria deliberação no levantar do livro para cobrir a maior parte do rosto, escondê-lo com a sempre certeira beleza das flores. O milenar objeto portador da cultura antes da futilidade das aparências -- esse pensamento atravessando a mente da moça, receosa de ter a feiúra capturada, enquanto o fotógrafo encosta o dedo no disparador, aliviado por não precisar se desdobrar em escolhas de enquadramentos para fazer o milagre de transformar isso numa imagem bonita.

E no entanto, as cores. Nenhuma fora do lugar. O vermelho, preponderante, deslizando por diversos tons para dentro da foto. O vislumbre do branco no ombro da moça, numa sugestão de uma roupa leve -- um vestido longo e esvoaçante? --, ressoando levemente na brancura do rosto. Talvez um chão de terra, para além dos limites do quadro, da cor dos cabelos, em harmonia com todo o espectro. E, logo acima do centro, inclinados na nossa direção, olhos dizendo mil coisas, nenhuma delas definitivas. As linhas das maçãs do rosto, sutilmente estendidas, sugerindo, por trás do livro, não a boca dela rindo, mas um sorriso quase abstrato, flutuando na inacessibilidade, achando graça da ingênua tentativa de compreendê-la.

Nesse universo de elementos inertes conduzindo a dureza das certezas para a pista de dança, a moça só pode ser feia dentro de um saco retórico de esquemas pretensamente lógicos, realistas e pé-no-chão, discursando com o queixo empinado como quem “sabe das coisas”. Se não insignificantes, eles dizem respeito a outras finalidades, mais autoafirmativas, ao tipo de verdade contra a qual se opõe esse fluxo de possibilidades, convergidas no sorriso e nos olhos dessa que poderia muito bem ser a mulher mais bonita que já existiu.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Dúvida

Consideremos esta garota, muito bonita, extrovertida e inteligente, 20 e poucos anos, participante ativa e conhecedora das particularidades linguísticas de diversas redes sociais, das quais recortaremos somente o Facebook (FB). São dez da noite de uma sexta-feira fria, e ela se sente sozinha. Possui muitos amigos no FB, mas só se considera realmente próxima de menos de 10% deles.

Em frente ao computador, FB aberto, ela está em dúvida entre duas combinações de roupas, qual delas a deixaria mais linda e sexy para a noite. Mas ela não é ingênua, sabe que não basta sair deslumbrantemente bela que assim encontrará alguém que fará todo o trabalho valer a pena. Ela simplesmente quer se sentir bonita consigo mesma, e, claro, quer que outros a desejem. Que a desejem, mas a combinação tem que ser tal que a cena se configure de uma maneira que ela pareça alheia à própria beleza, como se ela despertasse o desejo nos outros nossa, sem querer.

Ela separa duas peças de roupas e dois adornos de cabelo, ambos diferentes. Entre atualizar o site para checar se recebeu novas mensagens, entremeia olhadelas no espelho onde avista seu reflexo segurando a roupa à frente do corpo, verificando as diferentes possibilidades de combinação. A noite é fria, ela não se decide, e o trabalho de escolher as roupas, misturado a um sentimento de solidão e de falta de expectativas, provocam nela um cansaço prematuro.

Ela é o que chamam de moderna (palavra que ela ouve mentalmente com o R arrastado), sabe como uma mulher deve se portar e agir, e por ter o conhecimento do que é esperado dos homens em tempos atuais, sente que bem poderia desafiar certas convenções, por que não? E justamente no momento em que pensa isso, um outro setor da sua mente já ergue mil defesas, engatilha toda uma retórica, fica ouriçada esperando aqueles prováveis gatos pingados  que poderiam considerá-la vulgar ou atribuir a ela qualquer dessas qualidades que não se espera que alguém manifeste em público (público?). E as porcarias das roupas que não combinam!

Exaltada, ela volta-se bruscamente para o computador e escreve corridamente um post no mural do seu Facebook, lançando aos seus mais de 300 amigos a questão que a atormenta: deve ela escolher a roupa X ou a roupa Y com o adorno Z ou o adorno W, qual é mais sexy?

O post no FB rapidamente atinge mais de 40 comentários, em sua maioria amigas ajudando a encontrar a melhor combinação de roupas&adornos que causariam o efeito esperando nos homens nessa sexta-feira  gelada. Ela se sente ousada. Lê os comentários e discute com ambos os sexos, enfatiza que a combinação de roupas deve servir unicamente à função de deixá-la sensual. Ela estima que, além do que agora são 50 e poucos comentários, deve haver aproximadamente 35% do total de seus amigos no Facebook lendo o post sem se manifestar. Muitos deles homens.

Ela pensa que, se não o efeito esperado de ousadia, alguém poderia achar estranho uma garota escrever publicamente que precisa ficar absurdamente sensual -- e gosta disso. Consigo mesma, sabe que não precisaria de ajuda, poderia muito bem se vestir de maneira deslumbrantemente sexy sozinha. E também não haveria ousadia, nem ela desafiaria microcósmicas convenções sociais, fosse a questão discutida privadamente.

Levando em conta que ela considera a sensualidade uma arte que pressupõe altíssimos níveis de sutileza, que ela sabe que qualquer elemento autoconsciente destoando minimamente do conjunto poderia arruinar a ilusão de inocência e mistério necessária para compor plenamente a imagem em seu potencial máximo, desenvolva como estas condições se relacionam com a escolha de tornar pública a sua questão, e disserte sobre o efeito da explicitação dessa estratégia feminina na mente dos homens acompanhando em tempo real o problema no FB, perpassando por tópicos exaustivamente estudados em aula, e.g. “narrativização da vida contemporânea”, “construção e projeção de identidade virtual”, “pós-feminismo”, “saturação estética”, “tédio global”, “o meio como mensagem”.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Alguns comentários sobre "Os Sinais Impossíveis", livro do Vinícius Castro.


Eu lutei muito com o ele, e digo isso no bom sentido, na tentativa de chegar em algum lugar; eu me debatendo com ele, eu o xingando e sendo xingado de volta. Qualquer um de determinada geração e classe se identificaria ferozmente com muita coisa ali, e não é fácil. Comigo foi muito mais sério do que aquela coisa exultante olha olha eu faço isso eu sou igual ao personagem. 

* * *

João, personagem principal, meio que não tem escolha a não ser transformar toda vivência cotidiana em narrativazinhas esgotadas, esvaziadas, ao mesmo tempo em que se debate consigo mesmo justamente pela obviedade que essas narrativas pressupõem, como se tudo já tivesse sido feito, dito, ironizado e se repetido na ironia. A consequência – e pra mim o grande pathos (pode chamar assim?) do livro – é a incapacidade de extrair algum sentido sério desse mundo. Não é a toa que, para João, só o que de fato faz sentido é: Luísa, sua namorada, e futebol. (Mulher e futebol, hãn?)

(Importante: esse não é o discurso do autor, mas sim a narração da própria consciência dos personagens: são eles que falam e  pensam  e que vivem dessa maneira. O que o livro como um todo diz é bem mais complexo e fugidio.)

Os momentos mais fortes são justamente os que narram a consciência dos personagens tentando de verdade mesmo encontrar  do outro lado do muro contra o qual elas batem a cabeça algo altêntico, que vá além desse ciclo de obviedades, de chegar a uma conclusão qualquer sobre o que quer que que seja, sobre coisas que aparentam uma distância enorme do cotidiano desses jovens (há guerras acontecendo no mundo; mas como levar a sério as imagens horrorosas repetidas dia-a-dia na televisão ecoando sem sentido numa sala de estar vazia e mal iluminada, a não ser por um esforço excruciante de imaginação?) E Luísa, no final do livro, no corredor de um hotel, se debatendo pra não se deixar cair no reducionismo bobo da ideia que só porque há a distância não quer dizer que não esteja acontecendo com pessoas reais; um raciocínio que ela sabe muito bem de onde vem e porque ela o tem naquele momento, tentando alcançar eventos distantes sem parecer perante si própria que só estava repetindo pensamentos já mais do que esgotadas sobre coisas que não têm o menor peso no seu cotidiano.

Aos poucos vamos percebemos, sempre sutil e parcimoniosamente, que Luísa sofre duma depressão séria, e o modo como a narração da forma a ela é motivo de admiração pelo autor. Mas a depressão dela, no mundo do livro, é mais um indício do pathos da coisa toda, da presença indefectível e concreta de uma consciência  mais aguçada que a do namorado, consciência esta que percebe que alguma coisa  tem que ser levada a sério. Luísa incorpora todo o modo de ver de João, com a diferença de que ela vai além, ela detecta as coisas precisamente onde João não consegue seguir adiante – que é justamente o ponto de partida de sua própria consciência, e portanto de seu sofrimento interno, que é narrado com uma sutileza absurda. Não me recordo de ter lido a palavra “sofrimento”, mas me lembro bem da imagem de Luísa parada no corredor do hotel, olhando pela janela para um Rio de Janeiro-cartão-postal, e dentro dela acontecendo toda uma luta enorme. O que vemos narrado no livro não é tanto a depressão em si, mas sim o reflexo de uma depressão nunca dita, na forma de uma busca pela mais ínfima autenticidade de pensamento que seja. 

* * *

Novamente eu quero diferenciar o que eu estou dizendo daquela coisa extremamente irritante repetida em algumas resenhas e frustrantemente mastigada por certos professores (difícil eles próprios acreditarem nisso), de que a gente vive num vazio tremendo, de que somos meros robôs à mercê da cultura de massa, etc. O livro do Vinícius não é de maneira alguma uma tentativa de retratar uma época vazia, os personagens não são meros receptáculos de um zeitgeist esgotado e bobo que o autor estaria expondo através deles. Justamente, uma das coisas mais interessantes do livro é precisamente a maneira como os personagens vivem nesse mundo (do livro), esmagados tanto pelo que esses estudos culturais (pouco sérios) dizem sobre esse pedacinho de contexto quanto pelo que qualquer um com uma mínima consciência moral tem de lutar contra quando por exemplo percebe seus amigos aparentando chafurdar incessantemente numa repetição absoluta de vaziêz, como se de repente nos esquecêssemos de toda uma infinita carga de coisas complexas que eles também carregam. Pra mim, a consciência desse esquecimento (e o embate contra ele) são das coisas mais bonitas do livro.

Há um trecho que pode ser ilustrativo: João está olhando para uma foto de uma menina capturada num pose sexy, e a mente dele num rompante começa a percorrer diversos caminhos até que o narrador chega na menina da foto, no presente, se olhando no espelho de um banheiro, paralisada de medo. É um dos poucos momentos onde João consegue fugir da sua excessiva estetização da realidade. A menina da foto parece toscamente com muitas daquelas que vemos em redes sociais, sem a menor autoconsciência. Mas o efeito é que de repente como que somos assaltados por um vislumbre de que ela está viva em algum lugar, e aquela foto não é exatamente o que aparenta, que talvez haja uma carga de complexidade por trás daquele besteira congelada, uma insegurança perante um namorado apontando uma câmera pra ela e exigindo uma foto que justamente no momento em que é tirada expressa o esforço gigantesco da menina para parecer naturalmente sexy perante a própria tentativa de “publicalizar” sua beleza, toda uma mistura de medo e insegurança incrustrada na mera tosquisse que evidenciam as redes sociais, tomando forma ali, naquele rosto no espelho.

* * *

Eu disse que o livro não era a representação ou retrato de uma época. Mas a matéria prima de Vinícius é sim uma parcela da realidade, de um contexto, mas é essa parcela tomada forma e trabalhada (nada de realidade nua e crua aqui, como se ela fosse possível). YouTube, festas, repetição, toda uma geração nascida e criada na frente da Internet -- essas coisas são um ponto de partida. Arriscando severamente ser piegas, eu diria: a voz criada por Vinícius é uma consciência moral se debatendo num meio aparentemente tão pouco apropriada a ela. Não só isso, há elementos interessantíssimos de sobra no romance, mas sim, também isso, talvez principalmente isso.

sábado, 21 de maio de 2011

Notas esparsas sobre Coetzee, de nada pra lugar nenhum.

Em À Espera dos Bárbaros (1980), o narrador, um velho magistrado vivendo na modorra de uma pequena cidade fronteiriça de defesa contra “certos bárbaros”, atormentado pela impotência sexual e por um estranho afeto por uma jovem bárbara recém capturada e torturada, decide levar a moça de volta para seus companheiros. Animado por finalmente conseguir descansar e colher água após dias viajando sob um inverno lancinante, o magistrado enfim sente seu sangue correr com as investidas da jovem, cegada após ser torturada pelos chefes do magistrado. Depois do sexo, ele dorme como uma criança em cima dela. Acorda no meio da noite com uma estocada de terror: sua mente está vazia. 

Ele tenta compreender o elo que o liga àquela mulher bárbara, selvagem, com o corpo coberto de cicatrizes. Indaga-se: é mesmo ela que ele deseja ou são esses traços da História marcados no corpo dela? Não chega a nenhuma conclusão; os pensamentos, repetitivos e cíclicos, tornam-se opacos e perdem o sentido. Ele a puxa para si; ela dorme um sono profundo e sereno, para o qual ele também logo desliza novamente.

***

Em Verão (2009), uma das mulheres que prestam depoimento sobre o falecido personagem John Coetzee revela que o grande projeto de vida e obra dele era refrear quaisquer impulsos irracionais, potenciais fontes de violência, “direcioná-los para a escrita”, e, como diz Elizabeth Costello, “salvar sua alma”, numa espécie de tomada de posição perante o mundo. Essa tomada de posição, em muitos dos personagens de Coetzee já previamente estabelecida no começo do livro, será conquistada em À Espera dos Bárbaros senão com extrema violência, quando o magistrado é arrancado do conforto de seu quarto, seus discos, seus livros, e jogado no olho do furacão de medo e paranoia, com sérias consequências físicas e morais (ainda que, em certa medida, inúteis). Mas a posição é irretratável uma vez que consolidada. 

***

A estocada de terror do magistrado ao perceber sua razão enuviada pode significar muitas coisas. Uma delas: o medo de ser guiado por impulsos, ou o medo de surpreender-se sem sua ferramenta para ordenar o mundo. Uma das causas que levaram o narrador ao turbilhão de caos do qual sempre manteve-se distante foi a vontade (leia-se: um bobo senso de justiça) de devolver a jovem bárbara a sua tribo, em detrimento de seus confusos sentimentos pessoais por ela. Chamar de amor esses sentimentos seria talvez precipitado: antes foram as cicatrizes no corpo dela – talvez, sempre talvez – que despertaram o seu "desejo estupidificado" (e Coetzee sempre embaralha desejo e amor, ainda que saiba e goste de dinstinguí-los lá do alto de sua desenvolvida consciência racional). Mas nem disso dá para ter certeza. E, para complicar, nada impede que isso seja uma modalidade amorosa. Apaixonar-se pela injustiça: tanto mais fácil enquanto vir em belas curvas feridas.

***

A conquista de uma posição ética sempre parece implicar, nos personagens de Coetzee, numa incapacidade de lidar com impulsos, dentre eles o amoroso ou sexual. Tanto é que seus protagonistas são sempre "sem-graça", duros. Uma consequência disso é a enorme falta de jeito para relações sociais e suas convenções, e aí também entra o jogo da sedução. O amor em Coetzee, ao menos o amor sexual entre humanos, só aparece ensaiado, sempre encurralado por digressões infrutíferas, e na prática nunca dá certo - quando não termina em desastres ridículos, patéticos.  Sempre pelo medo da mente em branco.


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Este post iria se chamar THE TURN OF A GENERATION IS ALWAYS THE DEATH OF AN INNOCENCE

Passei alguns dias fracassando em escrever um conto* onde uma menina¹ muito bonita com dificuldades de se abrir emocionalmente está, junto a um garoto, deitada na praia contemplando a imensidão do mundo e a miudez dela sob o enorme céu estrelado. O cenário não demoraria a desabar em estupidez, repetição de uma já batida imagem representativa da Beleza, e isso aconteceria justamente quando a menina percebesse que o seu problema de abertura emocional não é só seu, ela se daria conta que é um problema de uma tal contemporaneidade confusa consigo mesma, porque no começo do conto ela estaria imersa na imagem-clichê, e a revelação iria incomodá-la aos poucos, vinda parcimoniosamente de fora da cena com um grave rufar de asas. Tomaria conta dela uma surto emocional paralisante silencioso, que singificaria a realização não consciente e dolorosa de que estava olhando não para o mundo, mas sim para uma forma já esgotada de significado, e ficaria confusa sobre como aceitar os sentimentos de êxtase que tomavam conta dela ali naquela praia. Com a vergonha revirando o estômago, querendo e não conseguindo fazer parte de um cenário simples e milenar - uma praia a noite, as ondas batendo, um casal deitado contemplando as estrelas - a mão dela sem querer roçaria na do garoto ao seu lado, e, com o peito quase explodindo, olharia pra ele, que sopraria baixinho no ouvido dela como se se impusesse diretamente à sua consciência, “nem mais uma palavra”, frase roubada de um escritor. O engraçado é que a frase seria conscientemente roubada, este fato sendo reconhecido também por ela no exato instante em que ele a diz, então o clichê que a atormentava seria substituído por uma outra camada de clichê, um pouquinho mais original, mas no final das contas surtiria efeito, ele conseguiria calar as vozes interiores que a impediam de fruir o momento, a inocência seria mais ou menos restaurada, a autoconsciência parcialmente ignorada ou simplesmente aceita, e os dois continuariam ali deitados, semi-imersos no céu estrelado e na estradinha de luz projetada pela lua, revestidos de três camadas de clichês e felizes.



*não, isto não faz parte do conto-em-si, não é uma narrativazinha autoconsciente. É realmente um relato.** 

**eu juro.



¹ na verdade um impreciso e opaco threshold geracional, fossemos confiar nos pressupostos originais do conto.