Sento numa
mesinha circular cujo tamanho me faz parecer maior e mais destrambelhado,
numa calçada minúscula onde as pessoas têm de realizar uma curva para
não esbarrarem nas minhas pernas. Vou pedir um café
para um garçom extremamente atencioso, da minha idade, cheio de energia, sem dúvida com
experiência em lidar com turistas e seu característico humor involuntário.
Café, palavra simples, não muito grande, deve sair pelo menos aceitável se
pronunciado com a rapidez necessária, o tom interrogativo no “fé”. O garçom
repete café?, num italiano perfeito e fluído, e some dentro do lugar.
As ruas estão abarrotadas de gente. É feriado em Roma,
descubro. Os romanos (palavra pesada) caminham em dois fluxos
contrários. Mas não sei se são romanos. Com exceção de americanos e
japoneses, não há como distinguir italianos de turistas a não ser pelo mapinha
surrado e representativamente amigável, idêntico ao meu, consultado a cada
esquina, com desenhinhos dos pontos mais conhecidos, o Coliseu, o Panteão, o
Vaticano. Do outro lado da rua há um largo com uma fonte, em volta da qual
muitos sentam com câmeras fotográficas, cercados por carros e ônibus que passam
constantemente numa velocidade italiana,
uma variação motorizada e barulhenta da conhecida passionalidade exaltada da
língua. Todos parecem apressados, pessoas e carros (smart-cars compactos e
velozes, ônibus modernos que de tão baixos quase arrastam no chão) não perdem
tempo. Os turistas precisam ver as coisas, as igrejas, as ruínas, os milhões de
restaurantes que inundam a rua com cheiro das cozinhas mais conhecidas do
mundo. Os romanos, não sei por que correm. Eu também deveria estar correndo.
A pequena
fileira de mesinhas circulares do restaurante está quase vazia. Um jovem casal
italiano pede a conta, mas a garota ainda come com calma seu sanduíche, um cigarro aceso numa das mãos. Cada mesinha possui um pequeno cinzeiro de vidro, desses
que foram extintos dos bares e cafés brasileiros, e me entretenho um pouco ensaiando rasteiramente a diferença entre uma sociedade moralmente avançada e uma retrógrada moralista.
O casal paga
a conta e some numa esquina. Com o campo de visão livre, percebo uma mulher de no máximo trinta
anos sentada sozinha em uma das mesinhas, um café acaba de ser trazido pelo mesmo garçom atencioso. Ela veste um sobretudo preto, de frio. Será
italiana? As roupas não revelam nada, tampouco os cabelos pretos e lisos,
com franja, bonitos. Faz vinte graus em Roma, nublado, mas o sol ainda se esforça entre as nuvens.
Mecanicamente condicionada, minha mente tenta extrair algo da moça de preto, deslocá-la e problematizá-la com alguma tristeza. O olhar dela transita por diferentes pontos no espaço. As coisas e as pessoas desfilam ao redor dela, mas sua atenção não se detém em nada, traça com os olhos o contorno do ar. Pega o café, bebe um gole, coloca a xícara de volta na mesa - ela só mexe os braços e o rosto, ambos com uma calma que desafia a barulheira do lugar. Estaria ela consciente da composição da sua imagem, do seu papel, e também do meu, o de atingido
por acaso pelos estilhaços?
Numa rápida
conversa com o garçom, ela trai sua italianidade numa fala corrida e decidida,
da qual não consigo depreender uma palavra. Caso eu optasse por puxar conversa,
teria de lidar com aquela graciosa incompreensibilidade direcionada
só a mim, sem poder identificar brechas para piadinhas, quebra-gelo, um
desastre. Contentado então com só observar, sou logo descoberto em flagrante
quando ela vira o rosto na direção de um grupo de turistas que gritam e apontam
para seus mapas, bem do meu lado. Tento desviar minha atenção para o livro
aberto na mesa, mas sei que já era, minhas intenções ficam escancaradas
no ar, à vista de todos.
Enquanto
aguardo o café, tento ler um pouco, já sabendo que não vai dar. Manuseio sem
jeito o meu livro, “Microcosmos”, do Claudio Magris, como se de repente houvesse uma maneira universal e
correta de fazê-lo - uma mão segurando uma
das laterais e a outra a parte superior da lombada, como o homem guiando a mulher numa valsa. Alguns passantes lançam olhares disfarçados. A qualquer momento alguém me abordará pedindo informações, direções
para lugares incompreensíveis, em italiano ou em qualquer outra língua
impossível.
Chega o
café, trazido pelo rapaz atencioso com enorme vontade de servir bem. Ele
pergunta Brasil?, o L pronunciado com a língua encostando no céu da boca. Sim, sim, si, si. Um homem senta ao
lado da mulher de preto, ele parece americano, é forte, careca, usa um cavanhaque
ralo. A mulher não demonstra conhecê-lo, nem dá sinais de ter percebido o intruso. Todo desleixado na cadeirinha, o homem finge inspecionar o ambiente, finge que a mulher não está ali, o ato que antecipa o bote. O ar pesa com a iminência do flerte. Fico constrangido com as cantadas grosseiras,
fingidamente casuais e óbvias que virão a seguir. Mas a mulher já está pagando a conta, logo se mistura
à multidão, a perco de vista no mesmo instante, e o cenário volta para sua costumeira barulheira. Roma segue seu curso, inalterada. Bebo meu café, uma dose rápida
e forte, típica do país, e peço a conta. O garçom ri, divertido, provavelmente do meu italiano
com consequências em portunhol. Ele ri de mim ou comigo? O que fazer? Lembro de Kafka sentado
à mesa, soturno, esperando o mundo se oferecer sozinho e de bom grado, a nosso despeito. Me enrolo para encontrar a quantia
certa numa montanha de moedas numa bolsinha e entrego os três euros ao garçom, tentando rir junto com ele.
