segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Simone Weil

Olho sua foto.
O óculos, quase uma
formalidade. De estilo simples
ou ausência de estilo.
Um sorriso––irônico?
Não. Você não nos olharia
como olham os olhos em fotos de hoje.
Noutra, o sorriso é sincero, cristalino.
Noutra, um tanto assustada.
Noutra, desafiadora, feroz
Sem paciência
para homens e seus amores platônicos
em sentido vulgar.
É outro o teu Platão.
E tendo vivido
e morrido como viveu e morreu,
o chão da fábrica, a fome
os cadernos onde filosofia, alma e deus
cumprem funções altamente politizadas,
e imaginando que sua própria alma
gigantesca
daria de ombros ao meu olhar,
me pergunto por que nosso amor
a tudo despolitiza.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Kafka e o deus da dor: teses sobre justiça e tecnologia extraídas de A Colônia Penal

Caso a Justiça entendesse a si mesma como um mero sentimento, seria melhor chamá-la de  “sentimento de justiça”. Mas o que todo "mero" sentimento de justiça quer é a Justiça com J maiúsculo, a reparação divina de uma perda.

Assim entendida a Justiça, eis um princípio geral de Kafka: do ponto de vista da Justiça, o acusado já está condenado. Para a Justiça, a culpa do acusado é indiscutível a partir do momento em que o sentimento de justiça foi despertado em alguma instância de acusação inacessível. Para efetuar-se a Justiça, resta apenas que sua contraparte material, tribunais e juízes, transmitam ao condenado o resto.

A máquina de tortura da Colônia Penal é uma máquina de transmissão. Ela inscreve, com uma agulha, a sentença nas costas do condenado. A inscrição é, contudo, criptografada, escondida entre os floreios caligráficos que a agulha desenha nas costas do condenado para demorar-se na transmissão do sofrimento, como alguém trabalhando as curvas das letras num papel. A frase que a máquina transmite comunica, ao mesmo tempo, a condenação, a pena, e a razão.

Mas como fazer que o condenado, estúpido e ignorante de seu destino, entenda que seu sofrimento, do ponto de vista da Justiça, é justo? Primeiro, é preciso que o condenado sofra sem saber por que sofre, já que a Justiça é uma condenação que já foi decidida. Só depois de horas de tortura, quando o condenado começar a familiarizar-se com a dor, aprender a esperar as pontadas da agulha, conhecer intimamente os intervalos de alívio que precedem a próxima dor, só então ele decifrará a sentença cristalina que o  espera ao término dos floreios caligráficos. Nesse preciso momento, que também é o momento que menos importa, a agulha o assassina atravessando-lhe o crânio.

Por meio da dor causada pelos floreios da caligrafia da agulha, o condenado adquirirá um conhecimento que nenhum dos condenados que passam pelos nossos tribunais jamais conhecerá. Nossos condenados ouvem apenas frases incompreensíveis ditas deliberadamente em juridiquês, saindo da boca uma figura que em nada lembra um ser humano, em meio a discussões e aporias como as de namorados numa briga interminável. Já o condenado da Colônia Penal sentirá emergir a iluminação simples e clara da justiça em sua própria alma, por meio do conhecimento que a dor lentamente lhe ensina no corpo, e por conseguinte no espírito (evocando a sentença filosófica de Nietzsche, quando diz que a dor é aquilo que insere espírito e cultura num corpo humano).

A dor como forma de conhecimento foi também descrita por Kafka em seus diários:

1º de Fevereiro de 1922. Vista por um olhar primitivo, a única verdade real e incontestável, uma verdade não desfigurada por circunstâncias externas, é a dor física. Estranho que o deus da dor não tenha sido o deus maior das primeiras religiões (mas talvez tenha tornado-se nas posteriores). A cada inválido seu deus familiar, ao tuberculoso o deus do sufocamento. Como suportar sua aproximação sem se unir a ele em antecipação a essa terrível união?

Julian Jaynes, num estudo sobre a origem da consciência, dizia que a mente dos gregos da Ilíada e da Odisseia era uma “mente aberta” a invasões. As metafísicas que hoje atribuímos à consciência, os gregos ouviam através da possessão. Os deuses invadiam os homens e suas palavras produziam ações, afetos e pensamentos, papel que evidentemente atribuímos à (igualmente mítica) consciência.

A “dor como forma de conhecimento” concebe a possibilidade de que conhece-se algo melhor sem mediá-lo com a consciência, de que dependem os condenados de hoje para compreender sua sentença.

O cientificismo traça uma linha progressiva, evolutiva entre os gregos pré-homéricos e hoje. Mas a união harmônica entre um deus e o humano que sofre permitiria uma melhor relação com a dor do que o esquecimento que dela é pregado pelo cientificismo. Viver normalmente, no cientificismo, quando os deuses são lixo mental, significa esquecer que a dor física existe; lembrar-se é entrar num estado insuportável de ansiedade. Kafka evidentemente pensou em tal deus num momento em que procurava razões para a dificuldade de suportar suas dores (ou, como sempre em Kafka, inverteu o jogo, e projetou recessivamente um deus que sempre esteve ali). Como tolerá-las? Estar aberto à invasão de algo que, nos momentos de tranquilidade e segurança e também em todo os outros momentos da existência, nos lembre.

A Colônia Penal serve a essa pedagogia mítica pela dor. A máquina cumpre seu papel, o de ensinar a justiça pela dor. Para o sentimento de Justiça, que já condenou, o condenado deve sofrer antes de saber a razão de seu sofrimento. Porque saber antes, e só depois sofrer, como ocorre em nosso sistema em que a justiça vai sendo afunilada entre diversos humanos dotados de hermenêutica, significa forçar um discurso externo e acumulado de humanismo sobre o condenado, o quê por sua vez significa resistência por parte dele. Na nossa justiça, a cada instância pela qual passa um processo, ele se torna mais incompreensível ao condenado ignorante dessas instâncias.  Já na justiça da Colônia Penal, a sentença surge de dentro, ensinada pela dor, e não há resistência, só conhecimento pleno, iluminado, total.

No conto, a prova máxima da justeza da Justiça é que o oficial, defensor e divulgador da máquina de tortura, é quem morre nas entranhas da máquina, e não o condenado estúpido. O oficial fora condenado previamente pelo novo comandante, que é contra a máquina e seu procedimento arcaico. No conto, a sentença contra a máquina é cultivada no espírito do comandante, sem ser jamais proferida em voz alta, e mesmo assim já se arrasta pelos tribunais. Como a Justiça não acusa, mas condena, e embora a sentença se arraste, o oficial apaixonado pela máquina sabe que uma hora ela chegará até ele, que já está condenado. Depois de perceber que o narrador do conto também não aprova a máquina, o oficial entra nela voluntariamente. Mas a máquina emperra, e assassina o oficial sem floreio algum. (Cabe lembrar que a máquina é descrita como se irradiasse uma “vida simples e própria”). O oficial já sabia o crime que cometeu: ser a favor da máquina. A máquina também sabe. Do ponto de vista de quem detém o poder da Justiça, isto é, na visão do novo comandante, a máquina era uma afronta à Justiça, fato que automaticamente condena o oficial amante da máquina, mas dispensa o floreio pelo fato do oficial já ter interiorizado sua culpa.

Através de Kafka, percebe-se que a justiça num mundo secularizado só pode existir assim, numa engenhoca absurda e espalhafatosa, que no entanto serve a um propósito que o mundo secularizado precisa reproduzir: a origem divina (pré-histórica, nas palavras de Benjamin) da Justiça, que não é imposta de fora por discursos, e sim surge de dentro da pessoa como se pelo deus da dor. Tribunais não tem como servir à Justiça pois são compostos de humanos deslumbrados em seu poder hermenêutico, e a vida interior de uma tecnologia não conhece interpretações, apenas comandos. A tecnologia então imita o mecanismo divino da Justiça na era da técnica. Mas não é que a máquina se alimente de um poder divino. Ela simplesmente imita esse poder, dá-lhe a única forma que pode possuir entre nós, "modernos". Assim como um violão não é senão pedaços de madeira que, se bem arranjados, oferecem a possibilidade racional da organização de sons, harmonia e música, também os materiais da máquina da Colônia Penal são montados de forma a arrancar o poder absoluto da Justiça de suas origens de volta ao mundo. Por assim dizer, a máquina concretiza o sentimento de Justiça divino em instrumento material, racional, já que a Justiça só existe, do ponto de vista do mundo secular, na abstração objetiva, racional e desapaixonado da razão. E em matéria de razão, humano algum supera uma máquina, que não sabe fazer nada além de ser racional. Toda tecnologia é estúpida para pensar mas eficiente para imitar e produzir o poder, que não muda nunca. E embora crie sua própria vida e ponto de vista, a partir do qual o mundo é acrescido de novas perspectivas, seus efeitos não passam de iterações atuais de mundos perdidos.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Crise de ansiedade e sua relação com as coisas

Crise de ansiedade e a mente. Durante a crise de ansiedade, nota-se primeiro um monólogo descomunal na mente. Começa com um pequeno incômodo em não conseguir se concentrar. Em seguida não se pensa em mais nada propriamente dito. O ansioso então produz um monólogo que consiste em reiteradas constatações de que nunca mais vai conseguir pensar em algo que não seja a constatação monológica da crise. O corpo não aceita, se rebela, se protege, e sai em disparada sua sua própria língua para afogar o pensamento: falta de ar, tremedeira, calafrios, tontura. Pois o corpo erradamente diagnostica a mente como a causa daquilo tudo. Começa-se então a pensar mais, a gastar energia tentando traduzir o escândalo do corpo. Nessa batalha, quaisquer referentes “concretos” que possam ter contribuído para a ansiedade - família, dinheiro, relacionamentos – desaparecem. “Motivos” fazem parte do mundo da normalidade que vai ficando para trás.


Crise de ansiedade e o gatilho. Durante o ataque de ansiedade, pessoas, objetos e lugares estão perfeitamente demarcados, diferenciados. Passa-se uma vida inteira conscientemente entrando em lugares, e passa-se essa mesma vida ignorando que lugares também entram em você. Certos lugares adquirem na alma a propriedade de gatilhos. Sempre que se entra em um lugar, o gatilho dispara memórias, afetos, sentimentos, mas o barulho do disparo está muito longe, mal é escutado, estamos seguros. A crise de ansiedade são todos os gatilhos disparando ao mesmo tempo. 


Crise de ansiedade e pulmão. Existe uma forte conexão entre a crise de ansiedade e o ato de respirar. É recomendado que o ansioso faça um trabalho de respiração profundo, ritmado. A respiração, por controlar o ritmo do corpo, estabelece a supremacia do corpo sobre a mente, ou melhor, estabelece que as duas coisas são uma só, o que significa quebrar a ilusão de que a mente controla o corpo. O problema é que, durante a crise de ansiedade, qualquer coisa se torna um gatilho, então o ansioso tem medo de não conseguir resolver a crise com um trabalho de respiração, e a meditação também se transforma num gatilho. Porém, o ansioso deve continuar respirando de maneira ritmada mesmo sem acreditar (é revelado, na crise, que a crença é um aspecto da razão). Convém se concentrar no ar que entra e sai. Então o ansioso de repente perceberá a ansiedade como um objeto externo, como se pudesse tocar nela. O local onde essa percepção ocorrerá é no peito: lá a ansiedade poderá ser vista se debatendo, tentando se espalhar, bem onde o pulmão a encobre com seu embalo. É melhor falar em canção de ninar do que em luta. O ansioso perceberá que a ansiedade não foi embora, mas agora perdeu seu controle, tornou-se objeto. Supremacia do pulmão.


Crise de ansiedade e a civilização ocidental. Fora da crise de ansiedade, a ansiedade é sempre um objeto como outro qualquer. A normalidade trata as coisas sempre como que fora da alma, como objeto, e nós sujeitos. Durante a ansiedade, tudo que fomos educados a ignorar, não perceber, absorver, reprimir, se revolta. Há uma política da crise de ansiedade: ela revela o modo de existência ocidental, e mostra que mesmo as melhores pessoas, as pessoas mais conscientes desse modo de existência, estão vivas, estão saudáveis, estão separando sujeito de objeto. Do contrário, estivessem elas numa crise de ansiedade, não poderiam criticar nada, e desejariam profundamente o retorno à normalidade. A ansiedade mostra uma certa hipocrisia da crítica ao ocidente. Porém uma hipocrisia necessária. Pois o ansioso precisa voltar à normalidade, à saúde, para depois criticá-la.


Crise de ansiedade e informação. Durante a crise de ansiedade, recomenda-se ficar bem longe de aparelhos digitais, de modo que o ansioso não tenha contato com nenhuma informação. A única informação que não agravará a crise de ansiedade é informação sobre a crise de ansiedade. Todo o resto se transformará em gatilho. Caso o ansioso desinformado receba notificações no celular, ele terá uma experiência de pesadelo, na qual notificações que pulam e fazem barulho o atingirão como os tiros que são. Isso acontece porque os aparelhos digitais, embora criados na suposição de que sabem o que queremos, são produzidos a partir de uma planta do funcionamento fisiológico do corpo, principalmente dos orgãos sensoriais. Uma tela é construída de modo a enganar a retina do olho, e um alto falante de modo a arranjar os sons de acordo com a frequência que o ouvido humano pode absorver e decodificar em significados. Porém raramente esses significados, essas mensagens, serão convertidas em informação sobre a crise de ansiedade. Uma exceção a essa regra pode ser observada no caso de quem se ama estar longe.


Crise de ansiedade e a cultura.
 Tudo que uma tecnologia de informação faz é contrabandear os seus assim chamados “conteúdos” a partir de uma brecha, uma falha no corpo humano instalado com uma ‘cultura’. Essa brecha é o que permite a cultura ela própria a se instalar: educação. Esses conteúdos são, além disso, a própria cultura. Durante a crise de ansiedade, ocorre um curto circuito dessa cultura, e o ansioso se vê de repente não conseguindo alocar os significados necessários nos slots correspondentes, base mecânica que rege o funcionamento da cultura. Mas ainda lhe resta a memória de uma época em que os slots funcionavam perfeitamente. Essa memória é também o limite que o separa da loucura completa, do mergulho final, que ele já vislumbra durante a crise de ansiedade. 


Crise de ansiedade e a paz de espírito. Quando passa a crise de ansiedade, seja por que métodos, o ansioso se encontra de novo na saúde, e experimenta a mais profunda paz de espírito disponível na Terra. Como uma ferida, contudo, ele guarda na memória a dor da crise, o abatimento, o cansaço. O ansioso faria por bem não esquecer, não reprimir a memória da crise; ele deveria inclusive penetrar nela, aproveitando que ela agora é novamente só um objeto, e ele o sujeito (livre).


Crise de ansiedade e literatura alemã. Recomenda-se (antes ou após uma crise) que o ansioso leia certo tipo de prosa. A tese aqui é que, após o auge do romantismo alemão, alguns escritores incomodados com o Geist, com a alma, com o espírito, e muito doentes, inventaram um tipo de prosa, isto é, manusearam a tecnologia ‘escrita’ para lidar com alguns pontos cegos do romantismo, dentre eles a questão alfandegária envolvendo corpo, alma, e ambiente (gatilhos). Ajeitou-se a prosa para lidar com a essa produção de gatilhos em que foi pródigo o romantismo. Recomenda-se aqui Os cadernos de Malte Laurids Brigge, de Rainer Maria Rilke, onde o ansioso encontrará como que o mundo visto pela crise de ansiedade, porém sem as desvantagens físicas da crise, onde lugares, coisas, e pessoas possuem tanto narrativa e vida própria quanto o próprio narrador. O ansioso se deparará, em Rilke, com uma maneira de pensar análoga a maneira como pensa a própria ansiedade.


Crise de ansiedade e o amor. A vantagem da crise de ansiedade é que o ansioso fica impossibilitado de mentir. Amigos e objetos de interesse amoroso só ouvirão palavras verdadeiras do ansioso durante uma crise, e convém explorar essa vantagem. O discurso pode ser convoluto, desconexo, mas transmitirá substâncias verdadeiras, em sua textura ou em suas mensagens. Durante a crise de ansiedade, a crise de ansiedade e o amor são as únicas Verdades do mundo. Se o ansioso possui o luxo de amar e ser amado, esse amor se apresentará como o caminho de volta. Quem receia falar com o ansioso durante uma crise pode ficar tranquilo: nada é demandado de você a não ser que tu exista. O peito é a morada da ansiedade, mas é também a tua.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Desconcentrado

23h00
Toda bala tem um nome.
Poema da bala: a cada estrofe alguém morre por um tiro.
A bala disparada tem o nome da pessoa morta. As estrofes contam a história da pessoa e a circunstância em que ela morreu.
As especificidades das pessoas mortas dão sentidos diferentes para o refrão.
Toda bala tem um nome.
A bala: mensageira ideal, mensagens compostas especificamente para a vida da pessoa que a recebe.
Cada morte é diferente da outra. A bala dá o sentido específico de cada morte.
Morre-se como herói, morre-se como mendigo, morre-se orgulhoso, morre-se policial ou morre-se burguês. Não é indiferenciação, não é que a bala não respeita diferenças. Ao contrário. Ela ama todas as individualidades.
Morre-se niilista, morre-se de sentido ou morre-se feliz nos braços de deus. A bala que contém seu nome revela a ingenuidade de quem acha que toda morte é igual, revela o tipo de vida que condiciona o tipo de morte que se tem.
É irônico mas é verdadeiro.
Rilke escrevendo sobre como hoje, em 1910, não se morre mais da morte no leito familiar, mas morre-se de doença em hospital: até a morte foi arrancada do peito das pessoas.
Do mesmo modo, João Cabral, esse rilkeano, pôde escrever que se morre de morte severina.
Do mesmo modo, no Rio, morre-se de assalto ou morre-se pela polícia, e a morte (o medo da morte) é aquilo que condiciona o sentido da morte de cada um.
Um guerreiro medieval morria feliz em batalha. Um morador da zona sul morre de medo de morrer de assalto.
Um bandido ambicioso, de quem fala o rap, cujo Crime é uma Estrada, morre uma morte parecida com a do guerreiro medieval, com a diferença de que a morte na prisão ou pela polícia é tudo que lhe resta. Morre-se fugindo da miséria, e a bala sabe.
Só quem está seguro em casa morre de morte niilista paralisante, inspirado em franceses inspirado em alemães.
Todos tem medo, mas do ponto de vista da bala, é como receber uma carta: don’t shoot the messenger.
Toda bala tem um nome. Parece bom.
Mas na verdade pensando em Nádia.

23h40
Meu pai dorme sentado no sofá, celular com um jogo de poker na barriga, garrafa de vinho pela metade.
Eu bebendo uma latinha de cerveja na cozinha, após ter esvaziado outra garrafa de vinho,
escrevendo um poema sobre a violência no Rio de Janeiro, imaginando mensagens distantes e armas de fogo, preocupado com o alcoolismo,
mas na verdade pensando em Nádia.

00h00
Raymond Carver, poeta, alcoólatra. A bebida o destruiu, a ele e sua mulher.
E quando viu a filha acordada às três da manhã, cinzeiro cheio, garrafas vazias, viu que a culpa era dele.
E, lado a lado desses poemas sobre vício, velhos conhecidos mortos, brigas conjugais que trovejavam na noite.
os poemas de amor, tão violentos quanto as brigas, tão bonitos quanto.

00h30
Acalma finalmente o tiroteio no Pavão-Pavãozinho, território cercado,
refém da Lagoa, Ipanema, e Copacabana.
Vejo a fumaça subindo, cercando fronteiras
(ao contrário do que é típico das fronteiras)
reais. Tiros ou estalinhos de crianças na Lagoa.
O terror do rotar cinematográfico do helicóptero.
Estou vivo, mas meu corpo treme, cuja intensidade
vibra na frequência da violência dos ícones e índices.
Mas pensando em Nádia.

01h00
Penso nos versos:
“Levantei e apertei as mãos desse homem que acabara de me dar
algo que ninguém na terra havia me dado antes”,
Assim disse Carver sobre seu médico, o mensageiro que lhe noticiara o câncer de pulmão
que o matou.
A pior notícia que alguém poderia receber
Carver recebe com a surpresa de uma carta,
de alguém distante, talvez até querido,
de todo modo não necessariamente ruim,
como se, sem querer, ele se desconcentrasse,
penso. Mas na verdade pensando em Nádia.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A mensageira

A essa foto e a essa voz
eu pergunto ––
deixa eu perguntar, por favor
O que você pensa? ––
O que pensa sobre –– sobre isso aqui?

Sobre fotos e vozes e vida
saída assim do nosso corpo remoto, mas —
Melhor não.
Isso deveria nos aproximar ou pelo menos
deveria ser não de um para o outro mas de um com o outro.

Já tu, se perguntasse, eu diria que
eu penso bastante mas ––
como posso falar?
Se ao menos você pudesse falar.

Pra mim é simples.
Não é que eu queira isso ou aquilo especificamente embora sim.
Ou porque estou aqui
E não lá fora ou mesmo aí

É só que a minha vida
agora é toda feita aqui
E tu tão remota
parece também menos lá ou aí do que aqui.
Mas tudo que tu me manda de ti
de ti se retrai e vira em mim
ecos que repetem distâncias
em vozes que só falam aqui.

E no entanto sei que isso com que converso ––
sei que tu
és uma janela para lá
para ti, para esse tu
para a segunda pessoa do singular
uma segunda pessoa singular, não eu e não outra
nem tua voz ou tua foto
mas tu

Enquanto isso ––
tu tens que mudar de vida – não aqui mas ––
é o eco

Lá, eu disse ao médico:
Doutor, engoli uma pedra de ar
A chaleira que apita explodiria se eu deixasse?
Mas não é só ar?
Doutor, deixa eu te perguntar ––




















quarta-feira, 7 de setembro de 2016

No dia da minha morte encontrei um Gyarados em frente a uma delegacia da Polícia Militar

Eu atravessava a rua trocando entre aplicativos, minha atenção voltada para uma discussão política no Facebook travada com memes. 
Um adolescente precoce mandava um Karl Marx portando um iPhone porque nenhum discurso de esquerda possuía efetividade se embrenhado no símbolo máximo do capitalismo.
Um calouro de sociologia enviava uma caricatura com elefantíase porque ninguém aqui havia lido uma linha de Marx que não seja o Manifesto Comunista. 
Um mestrando em Comunicação Social da PUC mandava o Mark Zuckerberg sorrindo como um chefão do mal.
Um futuro TI utilizava um antigo meme de um rapper americano envolvendo Edward Snowden e Mark Zuckerberg para demonstrar, pelo conceito de strange loops, que independente de ideologias ou de mensagens, o Facebook sempre se refereria de volta ao Facebook.
Um professor de literatura mandava uma foto não-solicitada do pau, gerando uma memorável marchinha de carnaval do outro lado da Internet. Ele aproveitou o ensejo para realizar um ataque mordaz ao cânone ocidental e às contingências valorativas, por escrito mesmo, que ninguém leu.
Um vestibulando colocava um óculos descendo sobre a cabeça do dito pau.
Uma aluna de Artes Plásticas floodava o post com um arsenal de fotos de paus colhidos no Google Imagens, diante dos quais o estudante de engenharia, depois de muito implorar pela sanidade de sua heterossexualidade, abandonou a discussão.
Uma funcionária do Starbucks trazia Simone de Beauvoir fumando um cigarro triunfalmente.
Um famoso tuíteiro mandava um print onde sugeria uma ação através do qual o copo descartável do Starbucks equivalesse a um muro do centro da cidade em termos de superfície ou mídia de expressividade política.
Um jogador de League of Legends enviava um meme provavelmente forjado na Tábua de Esmeralda do Chapolin Colorado dizendo não fazer sentido chamar Bolsonaro de nazista e idolatrar a Simone de Beauvoir.
Um mestrando em filosofia mandava uma xilogravura do século XIV para expressar que Jorge Ben era a figura mais importante que esse país já viu e com quem as décadas vindouras precisarão necessariamente lidar se quisermos sair dessa.
Um homem mandava um machão rindo dizendo que iria mostrar a elas o Segundo Sexo.
Uma conhecida poeta mandava um meme muito sutil e sagaz sugerindo que neguinho só estava ali pra pegar mulézinha de nicho, mulézinha feminista top (subvertendo linguisticamente várias expressões que algumas tribos vieram a associar à ingenuidade e burrice brasileiras).
Um meme de coletor menstrual coletava lágrimas de homens.
Eu estava crescentemente incomodado com a discussão, quando avistei do outro lado da rua um homem de óculos escuro, musculoso e sombrio, que me falou da necessidade política de diferenciarmos entre a comodificação de afetos e desejos e se utilizar desses afetos da maneira efetivamante política, e o que é política afinal?, e que talvez ninguém na verdade possa fazer nada porque a internet onde 90% dos usuários deposita vida e tempo é feita de empresas user-friendly que fornecem uma rede de retroalimentação onde você é funcionário voluntário de corporações cujo lucro se dá na proporção do teu livre-arbítrio. Falava como um erudito porém livre de jargões, e em sua fala as tags da discussão eram subvertidas e ressignificadas, como um bricoleur em êxtase articulando símbolos ontologicamente nulos do alto de um lixão.
Ele disse que meu espírito abandonaria a superfície da web 2.0, e iria parar em bancos de dados escusos, de interfaces incompreensíveis, em bunkers americanos enterrados próximos ao centro da Terra, onde ela seria picotada por processos ainda não mapeados, e seria avistada pela próxima e última vez em um anúncio que prometia transformar meus “gostos pessoais insignificantes em potência política”, um anúncio pensado por um garoto prodígio da publicidade, cuja ideia surgira após o cruzamento de informações que um dia foram minha alma com as de outras almas novas e imberbes que se atormentaram diante de telas, quando vivas.
Eu ainda tentava capturar o Gyarados, que dançava em todo seu esplendor azul em frente ao batalhão da PM, quando o homem me perguntou por que eu tirava fotos dele. Expliquei a situação e disse que o Gyarados sempre fora meu Pokemon favorito desde a infância, quando evoluí, com paciência e dedicação que nunca mais soube empregar em nenhum outro aspecto da minha vida, minha primeira Magikarpa num surrado Game Boy.
O homem, que revelou ser um sargento da Polícia Militar, sorriu e disse: “Hobbes não é nada além de Rousseau refletido em um espelho negro.”. Eu não entendi mas ele disse que saíaa de si quando celulares eram apontados para ele, e que as pessoas precisam parar de generalizar as coisas, pois tudo dependia de pontos de vista, ao que eu indaguei: depende de quem te olha ou depende de quem você olha? 
Diante da minha pergunta o PM se alterou e cismou que eu carregava drogas na mochila e puxou sua arma mas eu o acalmei dizendo que já estava morto há muito tempo, desde o dia que em comprei meu celular, e que só Pokemon havia conseguido instilar em mim um mínimo de vida, apenas o bastante para conseguir sair de casa novamente, e então me vi redescobrindo a rua, agora com maravilhosas possibilidades de interação e aventura, e se meu olho humano era falho e não conseguia enxergar o que meu celular enxergava, pior pro olho, e que inclusive eu havia conhecido minha primeira e única namorada em uma dessas andanças, uma menina mais velha que eu, que gravava vídeos sobre games antigos, muito inteligente e muito bonita, por quem me apaixonei ao assisti-la discorrer sobre as relações entre memória afetiva e os velhos gráficos poligonais das antigas gerações, e sei que ela também não saía de casa, seu quarto era abarrotado de itens e livros, sua maquiagem renovada a cada vídeo, eram dois por dia, seus trejeitos nervosos e ansiosos como se falasse de uma só vez para a câmera tudo que foi incapaz de falar em suas relações pessoais inexistentes ao longo de toda a vida, e já havia dito inclusive que morria de medo da rua, que a rua era amedontradora e aterrorizante, ela havia dito isso olhando nos meus olhos ou talvez nos olhos dos seus 100 mil seguidores, entre os quais eu a assistia com tamanha intensidade que era impossível que ela não sentisse meu olhar, e não deu outra pois um dia eu a encontrei numa praça andando de um lado para o outro com o celular na mão, e a partir daí começamos a andar juntos, ela na frente e eu atrás, e então praças, viadutos e muros, e a cidade em si, tornaram-se as dobras do nosso mapa particular, num amor tão privado que ninguém mais tinha acesso, da mesma maneira que não enxergávamos nada sem nossos celulares. Meu amor crescia na proporção em que diminuía o medo, que no fim se revelou tanto realidade aumentada quanto o próprio jogo.
Tudo isso eu disse ao sargento. Seja como for, à minha morte seguiu-se uma comoção midiática nacional por parte de moradores da Zona Sul e campanhas contra Pokemon Go à favor do retorno da empatia humana sem mediação da tecnologia, que duraram duas semanas. Minhas últimas lembranças são da gargalhada do sargento, e de ter capturado o Gyarados, que foi como lembrar um sonho distante, e a quem chamei de nada menos que Albert Einstein.

sábado, 3 de setembro de 2016

Essa lanchonete costumava ser barata

e escura como uma caverna
agora reformada, pronta para os turistas
móveis vermelhos e azuis
sob constelações de luzes
conseguiram apagar
todas as manchas


no cardápio o sanduíche mais barato
superfaturado
não deixa sombra de dúvida
tudo ao meu redor desmorona
lentamente


a varandinha cria uma falsa
perspectiva da rua à noite
em duas dimensões
uma pintura noturna onde homens
bem vestidos parecem ir de encontro
aos mendigos emergidos
com a chegada dos turistas


uma mãe negra enterrada em cobertores
grita com um bebê de colo
um turista deixa uma nota
carregando caixas de chicletes
entram as filhas


que sol nenhum
poderia apagar


alcanço minha carteira
onde não há dinheiro algum
a menina diante de mim
magra e desconfortável
no corpo espichado do dia para a noite
espera me olhando

envergonhada e digna

ela não quer dinheiro
só um doce
que mando incluir na conta


me ponho a fazer cálculos
e quando ela reaparece
e diz, tremendo de tímida,

a boca cheia de doce
obrigada, moço
chego ao valor exato
do desespero