quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Hipster com pau de selfie

É verdade.
Quem olha poderia jurar
que é um professor de História
no Forte de Copacabana.

Olhando gravemente o mar
por onde entrou Villegagnon
e os morros que já não mostram
Jean de Lery entre os Tupinambás.

Um naturalista da expedição
de Langsdorff.
Um escriba da embarcação de Villegagnon
Um comunista levando tiro.
Um professor de História do cursinho.
Seu homem ideal.

Da mureta à Guanabara aponta uma luneta
Ou uma espingarda ou uma espada
É guerra aos banhistas, ao passado
à nossa alma.

Quero saber quem fortificou o forte em História
e a pendurou num museu.
Aqui a foto dele
e adeus.

(Forte de Copacabana, 2015)





































terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Leitura de ficção versus leitura de feeds e timelines

Por que ler ficção causa alegria e ler feeds e timelines causa, principalmente, tristeza?

Enquanto quase se convencia da razoabilidade da defesa de Jesus, Pôncio Pilatos obedecia de modo automático ao poder do Estado, isto é, lia mentalmente um feed infinito de leis. Jesus representou para Pilatos a possibilidade de escapar do sentido pronto, autoritário, das leis. Foi ignorado. Ao condenar Jesus, Pilatos, que já sofria com uma enxaqueca terrível, foi então acometido por uma tristeza inexplicável. O leitor de feeds e timelines é acometido pela mesma tristeza. Ele quer desviar os olhos do feed assim como Pilatos desejou secretamente que Jesus dissesse a coisa certa para salvar-se (e salvar Pilatos). Dedos e olhos continuam rolando informações assim como a boca de Pilatos emitia a sentença de enforcamento* mesmo enquanto sua alma, que não acreditava possuir, gritava por socorro.


Recentemente, durante uma dessas sessões de rolagem morosas e despropositadas de timelines, me deparei com uma thread no Twitter sobre como estudiosos tendem a reprimir a presença marcante da vulgaridade na obra de James Joyce. Dizia o cara que Finnegans Wake, em seu aspecto mais elementar, seria a história de um pênis numa vagina. Mal terminei a thread e continuei a rolagem.

Trinta tuítes depois, eu estava irritado. Finnegans Wake pode ser reduzido a qualquer coisa que se queira, e um pênis numa vagina é só uma imagem do Começo. Vulgar é arriar as calças durante o jantar, não algo que James Joyce tenha escrito. Com um esforço de concentração, larguei a timeline e pensei: dar atenção a essa suposta vulgaridade, sequer utilizar essa palavra, é ignorar que Joyce estava no ramo de implodir hierarquias e oposições: épico e dramático, literário de não-literário, narração e ação, vulgaridade e o que quer que seja seu oposto. Ou seja, implodir a memória RAM da Literatura tornada atividade automática em seus escritores sob a forma de convenções literárias. Implodir não no mundo (para isso temos as lacrações), mas como efeito estético de leitura.

A contínua rolagem havia me impedido de processar uma das informações que são o objetivo superficial e enganoso das timelines, e causado uma sensação de esquecimento, irritação e anestesia. Feeds e timelines, em sua experiência ideal de rolagem infinita, promovem não “sobrecarga de informação”, como diz o clichê, mas sim tédio e vazio, porque promovem esquecimento. Do ponto de vista de uma timeline, é bom que esqueçamos todas as informações, para que tenhamos a eterna promessa de que a próxima nos salvará.

Há uma máquina de anti-esquecimento: ela se chama Ulysses (com seu “leitor ideal com uma insônia ideal”, em quem Borges moldou seu Funes, o memorioso). O livro se passa do lado de dentro dos altos muros de um único dia. Na vida, não é difícil lembrar, à noite, de algo que se pensou de manhã. Mas quando lemos um pensamento banal na página 20, que então é lembrado por outra pessoa só ao fim do dia, na página 800, aí tem-se uma ideia do funcionamento da máquina. Por meio de uma engenharia de informação única, Ulysses esgarça a memória. Uma lembrança de hoje de manhã chega com a mesma carga que uma lembrança de dez anos ou dez séculos atrás.

Enquanto eu lia os argumentos do cara sobre Joyce, cuja matéria prima é esquecimento e informação (de um dia específico, de um localização geográfica específica, constituindo um sistema-fechado infinito), a timeline do Twitter executava em mim, como se eu fosse um aplicativo, esquecimento e informação. Esquecido, demorei para ligar os pontos.

A leitura de ficção, em geral, também depende do esquecimento. É um acúmulo de experiências que vão sendo estocadas linha por linha, e em seguida esquecidas, retidas apenas em resíduos distribuídos num fluxo ininterrupto de experiência e memória. Ao final, o que esquecemos retorna com força e dá o efeito único e particular de toda boa leitura, e nos sentimos vivos.

Feeds promovem, às vezes, alegria, boas piadas, e frequentemente tristeza. E não só por causa de tanta notícia ruim, mas porque lê-se uma notícia ruim e já passa-se a outra. Assim como a ficção, a leitura de feeds e timelines também depende do esquecimento. Mas ao contrário da ficção,  há algo de morte da alma em esquecer duas horas de informação sobre, por exemplo, notícias graves e importantes, que demandam de nós posturas igualmente pertinentes, graves e importantes.

A ficção executa em nós, por meio de progressivos esquecimentos, experiência e vida. Já a timeline infinita, com informações do mundo cruel, nos transforma em aplicativos manuseados por algoritmo. Não querendo perder notícias de tais e tais assuntos, confecciono uma timeline, adiciono e deleto usuários. Nesse mundo reduzido, me posiciono de acordo com o algoritmo que me mostrou o mundo reduzido ao meu entendimento imediato. Jogo o jogo da timeline, deslizando infinitamente, e esqueço do que está na minha frente, como Pilatos com um feed na cara, uma enxaqueca dos infernos, e fico raivoso e triste.



*Tal como a história é contada em "O mestre e Margarida", de Bulgákov

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Imagens do preconceito em Isaías Caminha

ROUPA BONITA

Já no começo, Isaías associa a tristeza da mãe, sempre cabisbaixa, a não saber das coisas, e a dignidade feliz do pai a sua inteligência e conhecimento. Assim teoriza o jovem Isaías: ignorância traz tristeza e conhecimento traz felicidade. Isaías parte para o Rio de Janeiro para virar doutor e ser feliz.

Lá, conhece o preconceito. A primeira experiência racista é sofrida com ingenuidade e espanto. Tratado com grosseria gratuita na rodoviária, Isaías se olha no espelho: avalia sua fisionomia, suas roupas, o semblante bonito, a postura digna, a intelectualidade aflorando. Por que desconfiaram dele e não do outro homem ao seu lado? Por que essa confusão e essa indignação, como se tivesse feito algo errado, se está tão bonito, tão apropriado à capital?

O começo do romance de Lima Barreto se dá nessa chave de ingenuidade, que permite a Lima narrar a “gênese” do preconceito  de dentro, a partir de um sentimento violento na alma. 


Isaías cultivava a alma, o intelecto, a cultura, e agora, confuso, percebe nela essa mancha. Aprenderá a sentir raiva.

A CONQUISTA DA INDIFERENÇA

Mais adiante, Isaías (narrador) relembra do dia em que foi levado à delegacia, falsamente acusado de furto. Isaías tem um surto de raiva e xinga o delegado. Vai preso.


Contudo, o Isaías velho e calejado que narra suas memórias recorda com saudade esse episódio da juventude, quando ainda era ignorante à respeito do por quê de de tanta diferença e preconceito, e portanto ainda respondia às afrontas com indignação exaltada, quando ainda resistia e lutava pela indiferença, pela invisibilidade, pelo direito de cultivar recatadamente uma postura gentil, sensível, como lhe demandava o espírito educado. 

A raiva dos anos de juventude é uma memória acalentadora na velhice amarga de Isaías narrador, resignado e ocioso.

INVISIBILIDADE

Diferença entre a invisibilidade de Lima Barreto e a invisibilidade de Ralph Ellison: Em Lima, a invisibilidade é a indiferença de andar na rua sem ser visto, o luxo de não ser “julgado a priori”. Em Ellison, n’O homem invisível, a invisibilidade do narrador é uma espécie de feitiçaria: sua presença dispara alucinações nos passantes; ninguém o vê como ele é, vêem apenas sonhos e representações. O preconceituoso enxergam no Homem Invisível sua própria alucinação e terror. Assim o narrador comenta depois de quase assassinar um homem que o olhou torto graças à sua cor: “imagina o que esse homem não deve ter pensado, quase foi morto por uma alucinação, por uma criatura saída de seus pesadelos!”. Ellison evoca o também americano James Baldwin sobre a branquitude diante do negro: “perdem-se num labirinto intransponível entre a bondade com que pensam e a crueldade com que agem”).

CULTURA DO DOUTOR

Do desejo inocente de sair da roça e virar doutor, passando pelo alto status que a cultura brasileira dá à educação superior, a cultura do doutor persiste ainda hoje sob a forma de piadas. Se ser doutor hoje é ainda tratamento de superioridade utilizado com certo espírito humilde ou irônico, ser doutor para o ingênuo Isaías era ser alegre, sonho romântico de elegância e dignidade e desejo de reconhecimento do espírito. Lima promove uma encenação em registro irônico do romantismo mal digerido no Brasil. A escalada de frustrações e raiva que é “Isaías Caminha” é como uma bildung da materialidade que sustenta a cultura romântica do espírito.


ROMANTISMO

Poucos movimentos culturais foram efetivamente introjetado nos sistemas políticos e institucionais brasileiros como foi o romantismo. O modernismo não sublinha nossas instituições públicas, ao contrário de ideais românticos, como a própria República (de que duvidava o velho realista Machado de Assis).  Pouco antes do golpe de Floriano, os abolicionistas criticavam aqueles que preferiam ver primeiro a república do que a abolição da escravatura, afirmando que de nada adiantaria pensar (romanticamente) numa forma de governo para o povo, se não se tratasse antes do mal que mais o assolava.


ESPÍRITO DO DINHEIRO

Materialidade, romantismo, dinheiro. Quando a miséria se avizinha, Lima Barreto se aproxima de Goethe e Marx. A pobreza faz Isaías ver espírito no dinheiro:

“Os meus únicos amigos eram aquelas notas sujas, encardidas; eram elas o meu único apoio; eram elas que me evitavam as humilhações, os sofrimentos, os insultos de toda sorte; e quando eu trocava uma delas, quando as dava ao condutor do bonde, ao homem do café, era como se perdesse um amigo, era como se me separasse de uma pessoa bem-amada… Eu nunca compreendi tanto a avareza como naqueles dias que dei alma ao dinheiro.”

Marx, por sua vez, busca o espírito do dinheiro em Goethe:

MEPHISTÓFOLES
Então tudo aquilo que vigorosamente eu fruo,
É por isso menos meu?
Se posso pagar seis cavalos,
Não são minhas as suas forças?
Corro e sou um homem probo,
Como se tivesse vinte e quatro pernas.
(Fausto I, cena IV)



e Marx:
“O que é para mim pelo dinheiro, o que eu posso pagar, isto é, o que o dinheiro pode comprar, isso sou eu, o possuidor do próprio dinheiro. Tão grande quanto a força do dinheiro é a minha força. As qualidades do dinheiro são minhas - de seu possuidor - qualidades essenciais. O que eu sou e consigo não determinado de modo algum, portanto, pela minha individualidade. Sou feio, mas posso comprar para mim a mais bela mulher. Portanto, não sou feio, pois o efeito da fealdade, sua força repelente, é anulado pelo dinheiro. Eu sou - segundo minha individualidade - coxo, mas o dinheiro me proporciona vinte e quatro pés; não sou, portanto, coxo; sou um ser humano mau, sem honra, sem escrúpulos, sem espírito, mas o dinheiro é honrado e, portanto, também o seu possuidor. O dinheiro é o bem supremo, logo, é bom também o seu possuidor, o dinheiro me isenta do trabalho de ser desonesto, sou, portanto, presumido honesto; sou tedioso, mas o dinheiro é o espírito real de todas as coisas, como poderia seu possuidor ser tedioso? Além disso, ele pode comprar para si as pessoas ricas de espírito, e quem tem o poder sobre os ricos de espírito não é ele mais rico de espírito? Eu, que por intermédio do dinheiro consigo tudo o que o coração humano deseja, não possuo, eu, todas as capacidades humanas? Meu dinheiro não transforma, portanto, todas as minhas incapacidades no seu contrário?... não pode ele atar e desatar todos os laços? Não é ele, por isso, também o meio universal da separação?" (Marx, Manuscritos econômico-filosóficos)

*


A história termina com Isaías aceito na alta sociedade, desistindo de seus sonhos de literatura e educação. É para chegar a esse ponto que escreve suas memórias: para estabelecer a ociosidade e a resignação. Não tem mais pretensões literárias, pelo menos não com as memórias de um homem humilhado que tenta sustentar o espírito diante da miséria da república brasileira que acabamos de ler. Até a raiva o abandonou. Nesse começo de século vinte, tudo agora está bem normalizado, e o caminho aberto para o vinte e um.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Simone Weil

Olho sua foto.
O óculos, quase uma
formalidade. De estilo simples
ou ausência de estilo.
Um sorriso––irônico?
Não. Você não nos olharia
como olham os olhos em fotos de hoje.
Noutra, o sorriso é sincero, cristalino.
Noutra, um tanto assustada.
Noutra, desafiadora, feroz
Sem paciência
para homens e seus amores platônicos
em sentido vulgar.
É outro o teu Platão.
E tendo vivido
e morrido como viveu e morreu,
o chão da fábrica, a fome
os cadernos onde filosofia, alma e deus
cumprem funções altamente politizadas,
e imaginando que sua própria alma
gigantesca
daria de ombros ao meu olhar,
me pergunto por que nosso amor
a tudo despolitiza.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Kafka e o deus da dor: teses sobre justiça e tecnologia extraídas de A Colônia Penal

Caso a Justiça entendesse a si mesma como um mero sentimento, seria melhor chamá-la de  “sentimento de justiça”. Mas o que todo "mero" sentimento de justiça quer é a Justiça com J maiúsculo, a reparação divina de uma perda.

Assim entendida a Justiça, eis um princípio geral de Kafka: do ponto de vista da Justiça, o acusado já está condenado. Para a Justiça, a culpa do acusado é indiscutível a partir do momento em que o sentimento de justiça foi despertado em alguma instância de acusação inacessível. Para efetuar-se a Justiça, resta apenas que sua contraparte material, tribunais e juízes, transmitam ao condenado o resto.

A máquina de tortura da Colônia Penal é uma máquina de transmissão. Ela inscreve, com uma agulha, a sentença nas costas do condenado. A inscrição é, contudo, criptografada, escondida entre os floreios caligráficos que a agulha desenha nas costas do condenado para demorar-se na transmissão do sofrimento, como alguém trabalhando as curvas das letras num papel. A frase que a máquina transmite comunica, ao mesmo tempo, a condenação, a pena, e a razão.

Mas como fazer que o condenado, estúpido e ignorante de seu destino, entenda que seu sofrimento, do ponto de vista da Justiça, é justo? Primeiro, é preciso que o condenado sofra sem saber por que sofre, já que a Justiça é uma condenação que já foi decidida. Só depois de horas de tortura, quando o condenado começar a familiarizar-se com a dor, aprender a esperar as pontadas da agulha, conhecer intimamente os intervalos de alívio que precedem a próxima dor, só então ele decifrará a sentença cristalina que o  espera ao término dos floreios caligráficos. Nesse preciso momento, que também é o momento que menos importa, a agulha o assassina atravessando-lhe o crânio.

Por meio da dor causada pelos floreios da caligrafia da agulha, o condenado adquirirá um conhecimento que nenhum dos condenados que passam pelos nossos tribunais jamais conhecerá. Nossos condenados ouvem apenas frases incompreensíveis ditas deliberadamente em juridiquês, saindo da boca uma figura que em nada lembra um ser humano, em meio a discussões e aporias como as de namorados numa briga interminável. Já o condenado da Colônia Penal sentirá emergir a iluminação simples e clara da justiça em sua própria alma, por meio do conhecimento que a dor lentamente lhe ensina no corpo, e por conseguinte no espírito (evocando a sentença filosófica de Nietzsche, quando diz que a dor é aquilo que insere espírito e cultura num corpo humano).

A dor como forma de conhecimento foi também descrita por Kafka em seus diários:

1º de Fevereiro de 1922. Vista por um olhar primitivo, a única verdade real e incontestável, uma verdade não desfigurada por circunstâncias externas, é a dor física. Estranho que o deus da dor não tenha sido o deus maior das primeiras religiões (mas talvez tenha tornado-se nas posteriores). A cada inválido seu deus familiar, ao tuberculoso o deus do sufocamento. Como suportar sua aproximação sem se unir a ele em antecipação a essa terrível união?

Julian Jaynes, num estudo sobre a origem da consciência, dizia que a mente dos gregos da Ilíada e da Odisseia era uma “mente aberta” a invasões. As metafísicas que hoje atribuímos à consciência, os gregos ouviam através da possessão. Os deuses invadiam os homens e suas palavras produziam ações, afetos e pensamentos, papel que evidentemente atribuímos à (igualmente mítica) consciência.

A “dor como forma de conhecimento” concebe a possibilidade de que conhece-se algo melhor sem mediá-lo com a consciência, de que dependem os condenados de hoje para compreender sua sentença.

O cientificismo traça uma linha progressiva, evolutiva entre os gregos pré-homéricos e hoje. Mas a união harmônica entre um deus e o humano que sofre permitiria uma melhor relação com a dor do que o esquecimento que dela é pregado pelo cientificismo. Viver normalmente, no cientificismo, quando os deuses são lixo mental, significa esquecer que a dor física existe; lembrar-se é entrar num estado insuportável de ansiedade. Kafka evidentemente pensou em tal deus num momento em que procurava razões para a dificuldade de suportar suas dores (ou, como sempre em Kafka, inverteu o jogo, e projetou recessivamente um deus que sempre esteve ali). Como tolerá-las? Estar aberto à invasão de algo que, nos momentos de tranquilidade e segurança e também em todo os outros momentos da existência, nos lembre.

A Colônia Penal serve a essa pedagogia mítica pela dor. A máquina cumpre seu papel, o de ensinar a justiça pela dor. Para o sentimento de Justiça, que já condenou, o condenado deve sofrer antes de saber a razão de seu sofrimento. Porque saber antes, e só depois sofrer, como ocorre em nosso sistema em que a justiça vai sendo afunilada entre diversos humanos dotados de hermenêutica, significa forçar um discurso externo e acumulado de humanismo sobre o condenado, o quê por sua vez significa resistência por parte dele. Na nossa justiça, a cada instância pela qual passa um processo, ele se torna mais incompreensível ao condenado ignorante dessas instâncias.  Já na justiça da Colônia Penal, a sentença surge de dentro, ensinada pela dor, e não há resistência, só conhecimento pleno, iluminado, total.

No conto, a prova máxima da justeza da Justiça é que o oficial, defensor e divulgador da máquina de tortura, é quem morre nas entranhas da máquina, e não o condenado estúpido. O oficial fora condenado previamente pelo novo comandante, que é contra a máquina e seu procedimento arcaico. No conto, a sentença contra a máquina é cultivada no espírito do comandante, sem ser jamais proferida em voz alta, e mesmo assim já se arrasta pelos tribunais. Como a Justiça não acusa, mas condena, e embora a sentença se arraste, o oficial apaixonado pela máquina sabe que uma hora ela chegará até ele, que já está condenado. Depois de perceber que o narrador do conto também não aprova a máquina, o oficial entra nela voluntariamente. Mas a máquina emperra, e assassina o oficial sem floreio algum. (Cabe lembrar que a máquina é descrita como se irradiasse uma “vida simples e própria”). O oficial já sabia o crime que cometeu: ser a favor da máquina. A máquina também sabe. Do ponto de vista de quem detém o poder da Justiça, isto é, na visão do novo comandante, a máquina era uma afronta à Justiça, fato que automaticamente condena o oficial amante da máquina, mas dispensa o floreio pelo fato do oficial já ter interiorizado sua culpa.

Através de Kafka, percebe-se que a justiça num mundo secularizado só pode existir assim, numa engenhoca absurda e espalhafatosa, que no entanto serve a um propósito que o mundo secularizado precisa reproduzir: a origem divina (pré-histórica, nas palavras de Benjamin) da Justiça, que não é imposta de fora por discursos, e sim surge de dentro da pessoa como se pelo deus da dor. Tribunais não tem como servir à Justiça pois são compostos de humanos deslumbrados em seu poder hermenêutico, e a vida interior de uma tecnologia não conhece interpretações, apenas comandos. A tecnologia então imita o mecanismo divino da Justiça na era da técnica. Mas não é que a máquina se alimente de um poder divino. Ela simplesmente imita esse poder, dá-lhe a única forma que pode possuir entre nós, "modernos". Assim como um violão não é senão pedaços de madeira que, se bem arranjados, oferecem a possibilidade racional da organização de sons, harmonia e música, também os materiais da máquina da Colônia Penal são montados de forma a arrancar o poder absoluto da Justiça de suas origens de volta ao mundo. Por assim dizer, a máquina concretiza o sentimento de Justiça divino em instrumento material, racional, já que a Justiça só existe, do ponto de vista do mundo secular, na abstração objetiva, racional e desapaixonado da razão. E em matéria de razão, humano algum supera uma máquina, que não sabe fazer nada além de ser racional. Toda tecnologia é estúpida para pensar mas eficiente para imitar e produzir o poder, que não muda nunca. E embora crie sua própria vida e ponto de vista, a partir do qual o mundo é acrescido de novas perspectivas, seus efeitos não passam de iterações atuais de mundos perdidos.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Crise de ansiedade e sua relação com as coisas

Crise de ansiedade e a mente. Durante a crise de ansiedade, nota-se primeiro um monólogo descomunal na mente. Começa com um pequeno incômodo em não conseguir se concentrar. Em seguida não se pensa em mais nada propriamente dito. O ansioso então produz um monólogo que consiste em reiteradas constatações de que nunca mais vai conseguir pensar em algo que não seja a constatação monológica da crise. O corpo não aceita, se rebela, se protege, e sai em disparada sua sua própria língua para afogar o pensamento: falta de ar, tremedeira, calafrios, tontura. Pois o corpo erradamente diagnostica a mente como a causa daquilo tudo. Começa-se então a pensar mais, a gastar energia tentando traduzir o escândalo do corpo. Nessa batalha, quaisquer referentes “concretos” que possam ter contribuído para a ansiedade - família, dinheiro, relacionamentos – desaparecem. “Motivos” fazem parte do mundo da normalidade que vai ficando para trás.


Crise de ansiedade e o gatilho. Durante o ataque de ansiedade, pessoas, objetos e lugares estão perfeitamente demarcados, diferenciados. Passa-se uma vida inteira conscientemente entrando em lugares, e passa-se essa mesma vida ignorando que lugares também entram em você. Certos lugares adquirem na alma a propriedade de gatilhos. Sempre que se entra em um lugar, o gatilho dispara memórias, afetos, sentimentos, mas o barulho do disparo está muito longe, mal é escutado, estamos seguros. A crise de ansiedade são todos os gatilhos disparando ao mesmo tempo. 


Crise de ansiedade e pulmão. Existe uma forte conexão entre a crise de ansiedade e o ato de respirar. É recomendado que o ansioso faça um trabalho de respiração profundo, ritmado. A respiração, por controlar o ritmo do corpo, estabelece a supremacia do corpo sobre a mente, ou melhor, estabelece que as duas coisas são uma só, o que significa quebrar a ilusão de que a mente controla o corpo. O problema é que, durante a crise de ansiedade, qualquer coisa se torna um gatilho, então o ansioso tem medo de não conseguir resolver a crise com um trabalho de respiração, e a meditação também se transforma num gatilho. Porém, o ansioso deve continuar respirando de maneira ritmada mesmo sem acreditar (é revelado, na crise, que a crença é um aspecto da razão). Convém se concentrar no ar que entra e sai. Então o ansioso de repente perceberá a ansiedade como um objeto externo, como se pudesse tocar nela. O local onde essa percepção ocorrerá é no peito: lá a ansiedade poderá ser vista se debatendo, tentando se espalhar, bem onde o pulmão a encobre com seu embalo. É melhor falar em canção de ninar do que em luta. O ansioso perceberá que a ansiedade não foi embora, mas agora perdeu seu controle, tornou-se objeto. Supremacia do pulmão.


Crise de ansiedade e a civilização ocidental. Fora da crise de ansiedade, a ansiedade é sempre um objeto como outro qualquer. A normalidade trata as coisas sempre como que fora da alma, como objeto, e nós sujeitos. Durante a ansiedade, tudo que fomos educados a ignorar, não perceber, absorver, reprimir, se revolta. Há uma política da crise de ansiedade: ela revela o modo de existência ocidental, e mostra que mesmo as melhores pessoas, as pessoas mais conscientes desse modo de existência, estão vivas, estão saudáveis, estão separando sujeito de objeto. Do contrário, estivessem elas numa crise de ansiedade, não poderiam criticar nada, e desejariam profundamente o retorno à normalidade. A ansiedade mostra uma certa hipocrisia da crítica ao ocidente. Porém uma hipocrisia necessária. Pois o ansioso precisa voltar à normalidade, à saúde, para depois criticá-la.


Crise de ansiedade e informação. Durante a crise de ansiedade, recomenda-se ficar bem longe de aparelhos digitais, de modo que o ansioso não tenha contato com nenhuma informação. A única informação que não agravará a crise de ansiedade é informação sobre a crise de ansiedade. Todo o resto se transformará em gatilho. Caso o ansioso desinformado receba notificações no celular, ele terá uma experiência de pesadelo, na qual notificações que pulam e fazem barulho o atingirão como os tiros que são. Isso acontece porque os aparelhos digitais, embora criados na suposição de que sabem o que queremos, são produzidos a partir de uma planta do funcionamento fisiológico do corpo, principalmente dos orgãos sensoriais. Uma tela é construída de modo a enganar a retina do olho, e um alto falante de modo a arranjar os sons de acordo com a frequência que o ouvido humano pode absorver e decodificar em significados. Porém raramente esses significados, essas mensagens, serão convertidas em informação sobre a crise de ansiedade. Uma exceção a essa regra pode ser observada no caso de quem se ama estar longe.


Crise de ansiedade e a cultura.
 Tudo que uma tecnologia de informação faz é contrabandear os seus assim chamados “conteúdos” a partir de uma brecha, uma falha no corpo humano instalado com uma ‘cultura’. Essa brecha é o que permite a cultura ela própria a se instalar: educação. Esses conteúdos são, além disso, a própria cultura. Durante a crise de ansiedade, ocorre um curto circuito dessa cultura, e o ansioso se vê de repente não conseguindo alocar os significados necessários nos slots correspondentes, base mecânica que rege o funcionamento da cultura. Mas ainda lhe resta a memória de uma época em que os slots funcionavam perfeitamente. Essa memória é também o limite que o separa da loucura completa, do mergulho final, que ele já vislumbra durante a crise de ansiedade. 


Crise de ansiedade e a paz de espírito. Quando passa a crise de ansiedade, seja por que métodos, o ansioso se encontra de novo na saúde, e experimenta a mais profunda paz de espírito disponível na Terra. Como uma ferida, contudo, ele guarda na memória a dor da crise, o abatimento, o cansaço. O ansioso faria por bem não esquecer, não reprimir a memória da crise; ele deveria inclusive penetrar nela, aproveitando que ela agora é novamente só um objeto, e ele o sujeito (livre).


Crise de ansiedade e literatura alemã. Recomenda-se (antes ou após uma crise) que o ansioso leia certo tipo de prosa. A tese aqui é que, após o auge do romantismo alemão, alguns escritores incomodados com o Geist, com a alma, com o espírito, e muito doentes, inventaram um tipo de prosa, isto é, manusearam a tecnologia ‘escrita’ para lidar com alguns pontos cegos do romantismo, dentre eles a questão alfandegária envolvendo corpo, alma, e ambiente (gatilhos). Ajeitou-se a prosa para lidar com a essa produção de gatilhos em que foi pródigo o romantismo. Recomenda-se aqui Os cadernos de Malte Laurids Brigge, de Rainer Maria Rilke, onde o ansioso encontrará como que o mundo visto pela crise de ansiedade, porém sem as desvantagens físicas da crise, onde lugares, coisas, e pessoas possuem tanto narrativa e vida própria quanto o próprio narrador. O ansioso se deparará, em Rilke, com uma maneira de pensar análoga a maneira como pensa a própria ansiedade.


Crise de ansiedade e o amor. A vantagem da crise de ansiedade é que o ansioso fica impossibilitado de mentir. Amigos e objetos de interesse amoroso só ouvirão palavras verdadeiras do ansioso durante uma crise, e convém explorar essa vantagem. O discurso pode ser convoluto, desconexo, mas transmitirá substâncias verdadeiras, em sua textura ou em suas mensagens. Durante a crise de ansiedade, a crise de ansiedade e o amor são as únicas Verdades do mundo. Se o ansioso possui o luxo de amar e ser amado, esse amor se apresentará como o caminho de volta. Quem receia falar com o ansioso durante uma crise pode ficar tranquilo: nada é demandado de você a não ser que tu exista. O peito é a morada da ansiedade, mas é também a tua.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Desconcentrado

23h00
Toda bala tem um nome.
Poema da bala: a cada estrofe alguém morre por um tiro.
A bala disparada tem o nome da pessoa morta. As estrofes contam a história da pessoa e a circunstância em que ela morreu.
As especificidades das pessoas mortas dão sentidos diferentes para o refrão.
Toda bala tem um nome.
A bala: mensageira ideal, mensagens compostas especificamente para a vida da pessoa que a recebe.
Cada morte é diferente da outra. A bala dá o sentido específico de cada morte.
Morre-se como herói, morre-se como mendigo, morre-se orgulhoso, morre-se policial ou morre-se burguês. Não é indiferenciação, não é que a bala não respeita diferenças. Ao contrário. Ela ama todas as individualidades.
Morre-se niilista, morre-se de sentido ou morre-se feliz nos braços de deus. A bala que contém seu nome revela a ingenuidade de quem acha que toda morte é igual, revela o tipo de vida que condiciona o tipo de morte que se tem.
É irônico mas é verdadeiro.
Rilke escrevendo sobre como hoje, em 1910, não se morre mais da morte no leito familiar, mas morre-se de doença em hospital: até a morte foi arrancada do peito das pessoas.
Do mesmo modo, João Cabral, esse rilkeano, pôde escrever que se morre de morte severina.
Do mesmo modo, no Rio, morre-se de assalto ou morre-se pela polícia, e a morte (o medo da morte) é aquilo que condiciona o sentido da morte de cada um.
Um guerreiro medieval morria feliz em batalha. Um morador da zona sul morre de medo de morrer de assalto.
Um bandido ambicioso, de quem fala o rap, cujo Crime é uma Estrada, morre uma morte parecida com a do guerreiro medieval, com a diferença de que a morte na prisão ou pela polícia é tudo que lhe resta. Morre-se fugindo da miséria, e a bala sabe.
Só quem está seguro em casa morre de morte niilista paralisante, inspirado em franceses inspirado em alemães.
Todos tem medo, mas do ponto de vista da bala, é como receber uma carta: don’t shoot the messenger.
Toda bala tem um nome. Parece bom.
Mas na verdade pensando em Nádia.

23h40
Meu pai dorme sentado no sofá, celular com um jogo de poker na barriga, garrafa de vinho pela metade.
Eu bebendo uma latinha de cerveja na cozinha, após ter esvaziado outra garrafa de vinho,
escrevendo um poema sobre a violência no Rio de Janeiro, imaginando mensagens distantes e armas de fogo, preocupado com o alcoolismo,
mas na verdade pensando em Nádia.

00h00
Raymond Carver, poeta, alcoólatra. A bebida o destruiu, a ele e sua mulher.
E quando viu a filha acordada às três da manhã, cinzeiro cheio, garrafas vazias, viu que a culpa era dele.
E, lado a lado desses poemas sobre vício, velhos conhecidos mortos, brigas conjugais que trovejavam na noite.
os poemas de amor, tão violentos quanto as brigas, tão bonitos quanto.

00h30
Acalma finalmente o tiroteio no Pavão-Pavãozinho, território cercado,
refém da Lagoa, Ipanema, e Copacabana.
Vejo a fumaça subindo, cercando fronteiras
(ao contrário do que é típico das fronteiras)
reais. Tiros ou estalinhos de crianças na Lagoa.
O terror do rotar cinematográfico do helicóptero.
Estou vivo, mas meu corpo treme, cuja intensidade
vibra na frequência da violência dos ícones e índices.
Mas pensando em Nádia.

01h00
Penso nos versos:
“Levantei e apertei as mãos desse homem que acabara de me dar
algo que ninguém na terra havia me dado antes”,
Assim disse Carver sobre seu médico, o mensageiro que lhe noticiara o câncer de pulmão
que o matou.
A pior notícia que alguém poderia receber
Carver recebe com a surpresa de uma carta,
de alguém distante, talvez até querido,
de todo modo não necessariamente ruim,
como se, sem querer, ele se desconcentrasse,
penso. Mas na verdade pensando em Nádia.